Por que acreditamos que determinados dias, números ou sequências podem aumentar nossas chances de ganhar, mesmo quando os resultados dependem do acaso? Compreender a relação entre distorções cognitivas, percepção de controle e tomada de decisão ajuda a entender os mecanismos psicológicos envolvidos nos jogos de azar e contribui para estratégias de prevenção e cuidado relacionadas ao Transtorno do Jogo (TJ).
Neste artigo, Mirella Martins de Castro Mariani e Maria Paula de Magalhães Tavares de Oliveira, parceiras da Mobilização Freemind por meio do PRO-AMITI e da Associação Viver Bem, apresentam, com base em conhecimentos científicos, uma reflexão sobre os principais mitos relacionados à sorte, ao azar e à percepção de controle nas apostas.
Mirella Martins de Castro Mariani é bióloga e psicóloga, mestre em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e psicóloga supervisora do Programa Ambulatorial do Jogo (PRO-AMJO) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq-HCFMUSP). É também membro do Conselho Consultivo da Associação Viver Bem.
Maria Paula de Magalhães Tavares de Oliveira é psicóloga, mestre e doutora em Psicologia pela USP e colaboradora do Programa Ambulatorial do Transtorno do Jogo (PRO-AMJO), onde atua como supervisora de psicoterapia com orientação psicodinâmica.
Ao longo do artigo, as autoras abordam crenças sobre dias e horários de sorte, sequências “quentes” e “frias”, a falácia do jogador e a ilusão de controle, mostrando como essas percepções podem influenciar decisões e comportamentos de aposta.
A Mobilização Freemind agradece às autoras pela contribuição para a disseminação de conhecimento científico e informações qualificadas sobre os mecanismos envolvidos nos jogos de azar e na prevenção do Transtorno do Jogo.
Este é um conteúdo autoral. As informações e opiniões expressas são de responsabilidade exclusiva das autoras.
Os principais mitos sobre sorte, azar e controle nos jogos
As distorções cognitivas constituem um dos principais mecanismos psicológicos envolvidos na iniciação, manutenção e agravamento do Transtorno do Jogo (TJ). Crenças equivocadas sobre sorte, controle, previsibilidade e habilidade favorecem decisões irracionais, aumentam a frequência das apostas e dificultam o reconhecimento das perdas financeiras.
Crenças frequentes dos apostadores de jogos de azar incluem mitos como: os dias e horários de sorte, crença em sequências “quentes” e “frias”, a , ilusão de controle, superestimação da habilidade e o desconhecimento da vantagem da casa de jogo. Essas crenças e suas implicações para a prevenção e o tratamento do TJ são frequentemente discutidas à luz da literatura contemporânea em psicologia cognitiva, economia comportamental e neurociências.
Diversos estudos demonstram que essas crenças influenciam diretamente o comportamento de apostar, favorecendo o aumento progressivo das apostas, a perseguição de perdas e a persistência no jogo mesmo diante de sucessivos prejuízos financeiros (Edson et al., 2024). Entre os fatores cognitivos mais relevantes para sua manutenção, se destacam as interpretações sistematicamente enviesadas da realidade, que levam o indivíduo a superestimar sua capacidade de prever ou controlar eventos essencialmente aleatórios. Esse fator contribui para maior gravidade em apostas, principalmente entre os mais jovens, que se envolvem em jogos de azar online (Aonso-Diego et al., 2026).
Intervenções voltadas à reestruturação dessas crenças reduzem significativamente comportamentos de risco e favorecem decisões mais racionais, contribuindo para a promoção da saúde mental. A seguir, discorreremos sobre uma série de crenças comuns entre apostadores.
O mito e a verdade sobre dias e horários de sorte
É natural que a maioria das pessoas procure encontrar padrões. O cérebro humano é biologicamente programado para buscar respostas lógicas e ordem nos fatos, o que proporciona uma sensação de previsibilidade e segurança. No entanto, quando acreditam haver padrões ou lógica em eventos puramente aleatórios, como jogos de azar, ocorrem as chamadas armadilhas psicológicas, conhecidas como vieses cognitivos (Aonso-Diego et al., 2026).
Essa tendência, denominada apofenia, decorre da necessidade cognitiva humana de organizar informações imprevisíveis e de identificar padrões inexistentes em sequências aleatórias. Esse viés favorece interpretações equivocadas acerca do funcionamento dos jogos de apostas e contribui para decisões financeiras impulsivas (Tran et al., 2024).
Esse tipo de crença pode levar as pessoas a adotarem certas rotinas ou rituais, por acreditarem que isso irá aumentar sua sorte durante o comportamento de apostar. Uns, por exemplo, podem insistir em visitar o cassino em um dia específico da semana; outros podem realizar apostas em números ou com cartas específicas. A tendência humana de atribuir significado a coincidências representa um processo cognitivo conhecido como reconhecimento ilusório de padrões, amplamente documentado na literatura sobre tomada de decisão sob incerteza (Kahneman, 2011).
Nesse caso não existe lógica, mas superstições. Podemos dizer que superstição é um comportamento reforçado ao acaso. É fundamental compreender que a sorte não é regida pelo tempo ou qualquer outro tipo de parâmetro. Nas apostas, há independência de fatores e a imprevisibilidade é inerente ao jogo de azar. Quando a pessoa compreende isso e abandona essas crenças, passa a manter uma perspectiva mais saudável e, potencialmente, aprimora sua tomada de decisão sobre o que pretende fazer, reestruturando pensamentos e podendo encontrar alternativas mais realistas.
O mito e a verdade das sequências “quentes” e “frias”
Outra crença bastante comum entre os jogadores é aquela de que existem sequências “quentes” e “frias”. Eles costumam imaginar que, caso uma máquina caça-níqueis, ou um torneio, esteja dando lucro por um tempo, está “quente”, e por este motivo, acreditam ser provável que continue assim. No entanto, se não ocorreram resultados positivos, ou seja, se não pagou recentemente, ele passa a ser considerado “frio”. Essa crença contradiz a própria natureza dos jogos aleatórios, na qual cada aperto de botão, aposta ou mão do torneio é independente da anterior e da seguinte, indicando que o desempenho do passado não terá nenhuma influência nos resultados futuros, não havendo qualquer relação causal.
O mito e a verdade da falácia do jogador
Habitualmente, apostadores acreditam que resultados anteriores alteram a probabilidade de eventos futuros independentes. Um exemplo clássico da falácia do jogador ocorre na roleta, quando, mesmo após sucessivos resultados na cor vermelha, alguns jogadores acreditam que o preto estaria “para sair” e, portanto, apresentaria maior probabilidade de ocorrer na rodada seguinte. Do ponto de vista matemático, entretanto, essa inferência é incorreta. Cada giro da roleta constitui um evento estatisticamente independente, mantendo probabilidades constantes independentemente da sequência observada.
Apostadores são levados a tomar decisões ruins quando, por exemplo, depositam muito dinheiro ou crédito em uma máquina caça-níqueis que pagou recentemente, acreditando erroneamente que a máquina terá maior probabilidade de pagar novamente. Na realidade, cada jogada é consequência do acaso e independente da anterior. Essa compreensão é crucial para auxiliá-los a reconhecer que Formatado: decisões emocionais baseadas em tendências percebidas podem afetar significativamente o seu comportamento de apostar.
O estilo cognitivo de uma pessoa influencia seu comportamento em relação às apostas, podendo contribuir para a adoção de crenças irracionais ou inseguras. Incentivar as pessoas a pensar de forma mais analítica pode ser útil para reduzir crenças errôneas que promovem comportamentos problemáticos relacionados ao jogo de apostas.
Compreender que esses resultados são puramente coincidentes pode auxiliarcapacitar os jogadores a não se envolverem demais com as apostas e fazerem escolhas de maneira mais racional, maximizando sua eficiência nas estratégias de enfrentamento e nos pensamentos racionais (Armstrong et al.,2020).
O mito da ilusão de controle
Jogos de apostas são aleatórios por definição. Porém, muitos apostadores acreditam que suas ações influenciam os resultados, o que é uma distorção cognitiva importantemuito forte, que os mantém ativos na atividade. Eles escolhem um “número da sorte”, ou acreditam que a probabilidade de ganhar é maior por terem realizado um ritual específico. , e Aas pesquisas neurocomportamentais mostram que essa ilusão não é apenas uma crença peculiar, mas afeta, de fato, a tomada de risco e a motivação.
A ilusão de controle é a crença de que é possível influenciar jogos de puro azar por meio de habilidades, escolhas ou rituais supersticiosos; ela aparenta ser produto colateral que emerge a partir da interação dos indivíduos com as apostas. Essa distorção está fortemente associada ao aumento das apostas e ao comportamento de recuperação de perdas, considerado um dos principais indicadores clínicos do Transtorno do Jogo (APA, 2022). Exemplos clássicos incluem soprar os dados antes de jogá-los, atirar os dados com força para tirar números altos (ou suavemente para números baixos), ou acreditar que os números da loteria que você escolheu mentalmente têm mais chances de sair do que os números gerados aleatoriamente pela máquina (Clark et al., 2021).
Neste caso, cabe à psicoterapia do modelo cognitivo-comportamental realizar descrições de contingências ou treinar respostas de “como agir”, que permitam ações em contextos naturais, sob controle de propriedades dos jogos de apostas que explicitem não apenas a aleatoriedade dos resultados, mas também a falha de previsões e o efeito ineficaz de algumas de suas estratégias(frase muito longa). Assim, tanto o comportamento de apostar como as ilusões de controle podem ser reduzidos (Brandão, 2026).
E o que vale ressaltar?
Compreender os mitos comuns a respeito da sorte pode ajudar os apostadores a tomarem decisões melhores. Ao desmistificar concepções errôneas, é possível abordar o jogo de azar com uma mentalidade clara, focando em saúde, em diversão, em vez de superstição.
É importante lembrar que existem jogos de apostas predominantemente aleatórios e outros que envolvem componentes estratégicos. Tanto o pôquer como blackjack, por exemplo, são jogos em que alguma habilidade influencia parcialmente os resultados, visto que envolvem estratégias matemáticas e decisões probabilísticas. Entretanto, mesmo neles, a variabilidade inerente ao acaso permanece significativa. Muitos jogadores acreditam que suas habilidades vão superar o fator aleatório desses jogos.
Pessoas experientes podem sofrer longas sequências de perdas, enquanto iniciantes podem obter ganhos expressivos decorrentes exclusivamente do acaso. Ter este tipo de compreensão reduz expectativas irreais e favorece pensamentos racionais mais compatíveis com a natureza do jogo de azar.
A compreensão científica das distorções cognitivas relacionadas aos jogos de azar representa importante ferramenta para prevenção, diagnóstico e tratamento do Transtorno do Jogo. Além da intervenção clínica. P, programasProgramas de psicoeducação sobre probabilidades, aleatoriedade e funcionamento dos jogos têm demonstrado eficácia na redução das distorções cognitivas e na promoção do jogo responsável.
Referências
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• Armstrong, T., Rockloff, M., Browne, M. et al. Crenças sobre jogos de azar mediam o efeito do estilo cognitivo sobre problemas com jogos de azar. J Gambl Stud 36, 871–886 (2020). https://doi.org/10.1007/s10899-020-09942-5
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