Impulsividade e Tomada de Decisão: o que a Neurociência Explica

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Por que, muitas vezes, sabemos que determinada escolha pode trazer consequências negativas, mas ainda assim sentimos uma forte necessidade de realizá-la? Compreender a relação entre impulsividade, recompensa e tomada de decisão é fundamental para ampliar o olhar sobre diferentes comportamentos e fortalecer estratégias de prevenção, tratamento e recuperação.

Neste artigo, Bruna Lopes e Danielle Rossini, nossas parceiras da PRO-AMITI e da Associação Viver Bem, apresentam uma reflexão baseada na neurociência sobre os mecanismos envolvidos na impulsividade, no sistema de recompensa e na tomada de decisões.

Bruna Lopes é psicóloga, formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, e neuropsicóloga pela Universidade de São Paulo (USP). É colaboradora do Ambulatório dos Transtornos do Impulso, pesquisadora doutoranda pela USP e associada à Associação Viver Bem.

Danielle Rossini é psicóloga, mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Neuropsicologia e Psicoterapia. Atua com avaliação neuropsicológica, reabilitação e treino cognitivo, aprimoramento da performance e psicoterapia fundamentada na Terapia Cognitivo-Comportamental e na Psicologia Positiva. Coordena a área de Triagem Neuropsicológica do PRO-AMITI, no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (IPq-HCFMUSP), além de ministrar aulas em cursos de pós-graduação e palestras nas áreas de Neuropsicologia, saúde mental e desenvolvimento cognitivo.

Ao longo do artigo, as autoras abordam temas como o funcionamento do sistema de recompensa, os mecanismos relacionados à impulsividade, os marcadores somáticos, o modelo I-PACE, os sinais de alerta e as estratégias que podem contribuir para a prevenção e o cuidado.

Mais do que compreender por que determinados comportamentos se repetem, o conteúdo nos convida a olhar para a impulsividade com menos julgamento e mais conhecimento científico, reconhecendo que o cérebro possui capacidade de adaptação e mudança.

A Mobilização Freemind agradece à Bruna Lopes e à Danielle Rossini, bem como à PRO-AMITI e à Associação Viver Bem, pela parceria e pela contribuição para a disseminação de conhecimento baseado em evidências.

Este é um conteúdo autoral. As informações e opiniões expressas são de responsabilidade exclusiva do autor.

 

O CÉREBRO IMPULSIVO: NEUROCIÊNCIA, RECOMPENSA E TOMADA DE DECISÃO

Por que algumas recompensas parecem urgentes e como compreender esse processo pode apoiar prevenção, tratamento e recuperação?

Você já tentou fechar o aplicativo de apostas, guardar o cartão de crédito ou largar o celular e mesmo assim voltou a fazer exatamente aquilo que tinha decidido evitar?

Essa sensação de “eu sabia que não devia, mas fiz assim mesmo” não é falta de caráter nem fraqueza de vontade. Ela revela um dos conflitos mais estudados pela neurociência atual: o intervalo entre a intenção consciente e a execução do comportamento, um espaço onde circuitos cerebrais de recompensa competem com circuitos de controle e, em alguns momentos, os últimos acabam perdendo.

Compreender como o cérebro toma decisões sob a influência da recompensa é fundamental para entender comportamentos como o jogo compulsivo, as compras compulsivas, o uso disfuncional de tecnologias e outras dependências comportamentais, para, desta forma, construir estratégias reais de prevenção e cuidado.
Em um mundo hiperestimulado, essa batalha interna tornou-se um desafio cotidiano. Identificar os mecanismos neurobiológicos por trás desse desequilíbrio é o primeiro passo para retomar o comando das próprias escolhas.

 

IMPULSIVIDADE COMO UM PROCESSO CEREBRAL 

A impulsividade costuma ser tratada como um rótulo: “fulano é impulsivo”. Esta percepção traz um tom moral, com foco na índole da pessoa. Entretanto, a impulsividade não se refere à um problema de caráter. A ciência mostra algo mais interessante: a impulsividade é o resultado de diferentes redes neurais trabalhando (ou desequilibrando-se) ao mesmo tempo, com componentes afetivos, cognitivos e comportamentais.

Isso explica por que duas pessoas “impulsivas” podem ter dificuldades completamente diferentes. Uma pode ter problemas para interromper uma ação já iniciada (como continuar apostando mesmo decidido a parar). Outra pode entender perfeitamente os riscos, mas dar peso desproporcional à recompensa imediata, escolhendo sempre o prazer de agora em vez do benefício de amanhã. Tais características impulsivas, isoladas, não constituem marcadores
diagnósticos e podem estar presentes em diferentes condições neuropsiquiátricas, devendo ser interpretadas conforme o contexto, a frequência, o sofrimento subjetivo e os prejuízos funcionais.

Três grandes sistemas cerebrais participam dessa equação:
● O estriado ventral (onde fica o núcleo accumbens), ligado à antecipação de recompensas e à preferência por ganhos imediatos;
● O estriado dorsal, responsável por interromper ações já em curso;
● As regiões orbitofrontais e insulares, que avaliam risco, incerteza e consequências futuras.

Substâncias neuroquímicas como dopamina, noradrenalina e serotonina modulam esse equilíbrio: a dopamina impulsiona a motivação e o aprendizado por recompensa; a noradrenalina sustenta a atenção e o freio comportamental; a serotonina ajuda a tolerar a espera. Quando esse sistema perde o equilíbrio, o resultado pode ser a dificuldade de esperar, de avaliar riscos ou de simplesmente parar.

 

O SISTEMA DE RECOMPENSA: QUERER NÃO É A MESMA COISA QUE GOSTAR

Um dos achados mais importantes da neurociência da recompensa é que querer e gostar são processos parcialmente separados no cérebro.

A dopamina, liberada principalmente pela área tegmental ventral, não é o “hormônio do prazer” como se popularizou nas redes sociais. Ela está muito mais associada à motivação, à expectativa e à busca por novidade do que à sensação de prazer em si. O “gostar” depende de outros circuitos, ligados a sub-regiões específicas do núcleo accumbens.

Na prática, isso ajuda a entender por que uma pessoa pode continuar buscando compulsivamente por algo (como uma aposta, uma compra, uma notificação), mesmo quando esse comportamento já deixou de trazer prazer real. O sistema de “querer” pode seguir ativo mesmo depois que o “gostar” desapareceu.

Com a repetição, estímulos do ambiente passam a disparar respostas cada vez mais automáticas. É esse mecanismo que torna certos gatilhos tão poderosos: quando a pista já tem alto valor motivacional e a recompensa está a um clique de distância, a urgência de agir pode simplesmente atropelar a consciência das consequências futuras.

 

O CORPO TAMBÉM DECIDE: A HIPÓTESE DOS MARCADORES SOMÁTICOS

Nem toda decisão passa por um cálculo racional de custo e benefício. Segundo a hipótese dos marcadores somáticos, dos neurocientistas Antoine Bechara e Antônio Damásio, o corpo guarda registros emocionais de experiências passadas e esses registros são reativados como sinais de atração ou repulsa diante de uma nova escolha, antes mesmo de qualquer análise consciente. O córtex pré-frontal ventromedial integra esses sinais corporais com a avaliação de recompensas e custos; a amígdala associa estímulos a emoções; a ínsula “sente” os estados internos do corpo. Juntos, eles formam um sistema de alerta emocional que orienta, para o bem ou para o mal, nossas decisões.

Isso explica um paradoxo comum: a pessoa reconhece racionalmente os prejuízos de um comportamento, mas repete a escolha mesmo assim, porque os sinais de prazer antecipado ou de alívio imediato pesam mais, no momento da decisão, do que a representação abstrata de uma perda futura.

O modelo I-PACE: como a dependência se instala e se mantém Para entender por que certos comportamentos evoluem de um hábito ocasional para um padrão difícil de controlar, pesquisadores desenvolveram o modelo I-PACE (Interação entre Pessoa, Afeto, Cognição e Execução).
Segundo esse modelo, comportamentos aditivos resultam da interação entre quatro elementos:

Pessoa — predisposições biológicas, psicológicas e sociais;
Afeto — emoções, estresse, reatividade;
Cognição — expectativas, crenças e vieses de pensamento;
Execução a capacidade (ou dificuldade) de controlar o próprio comportamento. Na prática, um gatilho ambiental ativa uma resposta emocional que reduz, mesmo que temporariamente, o controle inibitório. Com a repetição, essas associações se fortalecem, e o comportamento vai se tornando cada vez mais automático, quase um reflexo.

Quando o impulso se torna um sinal de alerta? Os sinais abaixo ganham relevância quando formam padrões persistentes, aparecem em diferentes situações e produzem sofrimento ou prejuízo no cotidiano.

 

TABELA – SINAIS DE ALERTA E COMPETÊNCIAS PROTETIVAS 

Dimensão Possível sinal de alerta
Controle inibitório Dificuldade recorrente para interromper uma ação, mesmo após decidir parar.
Recompensa imediata Escolher repetidamente ganhos imediatos, apesar de consequências futuras relevantes.
Reatividade a pistas Sentir desejo ou urgência diante de aplicativos, anúncios, locais, objetos ou situações específicas.
Regulação emocional Tomar decisões precipitadas durante ansiedade, raiva, tristeza, tédio ou euforia.
Atenção Manter o foco de forma persistente em estímulos associados à recompensa.
Metacognição Ter pouca percepção dos próprios padrões e produzir justificativas automáticas para continuar.
Flexibilidade cognitiva Repetir uma estratégia mesmo quando ela deixou de funcionar.
Perspectiva temporal Ter dificuldade para representar o impacto futuro das escolhas atuais.

Quando buscar a ajuda de um profissional: Esses elementos servem como um mapa de observação, não como diagnóstico e não devem ser usados para rotular pessoas. Quando há perda de controle em relação a estas dimensões, sofrimento emocional ou prejuízo nas atividades diárias, a avaliação de um profissional qualificado permite compreender o padrão e verificar a presença de outras condições que também podem influenciar o comportamento.

 

O QUE A CIÊNCIA MOSTRA SOBRE PREVENÇÃO E TRATAMENTO

A boa notícia é que nada disso é definitivo. O cérebro tem neuroplasticidade, ou seja, a capacidade de se reorganizar a partir de novas experiências. Isso vale tanto para consolidar padrões impulsivos quanto para desconstruí-los.

Um estudo feito em nosso grupo de estudos com pessoas em tratamento para transtorno do jogo, por exemplo, mostrou melhoras consistentes ligadas à redução de emoções negativas e de distorções cognitivas relacionadas ao jogo, além do fortalecimento da capacidade de tomar decisões mais equilibradas. Este resultado sugere que o cuidado clínico consegue alcançar não só o comportamento visível, mas os mecanismos emocionais e cognitivos por trás dele.

Algumas competências funcionam como proteção real contra a impulsividade:
● Criar uma pausa: adiar por alguns minutos uma decisão importante ou uma ação impulsiva pode reduzir a urgência e abrir espaço para avaliação.
● Reduzir a disponibilidade: remover aplicativos, limitar meios de pagamento, bloquear notificações ou evitar locais de risco diminui o contato com pistas que acionam o comportamento.
● Nomear o estado emocional: reconhecer ansiedade, raiva, tristeza, tédio ou euforia ajuda a separar a emoção da ação automática.
● Preparar alternativas: definir previamente o que fazer diante de um gatilho reduz a necessidade de decidir no momento de maior vulnerabilidade.
● Aproximar o futuro: dividir metas em etapas concretas torna as consequências de longo prazo mais visíveis.
● Acionar apoio: familiares, profissionais e redes de cuidado podem ajudar a sustentar limites e reorganizar o ambiente. A impulsividade não deve ser entendida apenas como um risco. Ela é, sobretudo, um conjunto de processos que pode ser trabalhado com informação, apoio terapêutico e mudanças concretas de ambiente e rotina.

 

A CAPACIDADE DO CÉREBRO DE MUDAR

Compreender como o cérebro funciona diante das recompensas e dos impulsos nos permite enxergar o comportamento humano com mais conhecimento e menos julgamento. Se, por um lado, o cérebro pode aprender padrões que favorecem respostas automáticas e difíceis de controlar, por outro, ele também possui uma extraordinária capacidade de adaptação e mudança. Isso significa que dificuldades relacionadas ao autocontrole não são permanentes nem definem quem a pessoa é. Com informação baseada em evidências, intervenções adequadas e tempo para consolidar novos aprendizados, é possível fortalecer os mecanismos de autorregulação e promover mudanças reais e duradouras no comportamento.

Ao desmistificar a impulsividade e tratá-la como um processo biológico complexo, abrimos portas para caminhos de recuperação mais eficazes. A jornada exige paciência e o suporte profissional adequado, mas a neuroplasticidade é nossa aliada na busca por um estilo de vida mais equilibrado.

 

REFERÊNCIAS

● Anderson, A. C., & Verdejo-Garcia, A. (2023). Cognitive remediation for impulsivity in addictive disorders: Review of current evidence and future directions. Current Addiction Reports, 10, 472-484.
● Bechara, A., & Damasio, A. R. (2005). The somatic marker hypothesis: A neural theory of economic decision. Games and Economic Behavior. ● Berridge, K. C., & Kringelbach, M. L. (2015). Pleasure systems in the brain. Neuron.
● Brand, M. et al. (2016, 2019). Interaction of Person-Affect-Cognition-Execution (I-PACE) model. Neuroscience & Biobehavioral Reviews.
● Dalley, J. W., & Robbins, T. W. (2017). Fractionating impulsivity: neuropsychiatric implications. Nature Reviews Neuroscience.
● Rossini-Dib, D., Fuentes, D., & Tavares, H. (2015). A naturalistic study of recovering gamblers. Psychiatry Research.
● Tavares, H. (2011). Impulsividade e transtornos do controle do impulso. In M. R. Louzã Neto & E. Elkis (Eds.), Clínica psiquiátrica. Manole.