Bets, apostas e dependência

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As apostas sempre fizeram parte da história de diferentes sociedades. O que mudou radicalmente nos últimos anos foi a forma como elas passaram a ocupar espaço no cotidiano: estão na palma da mão, por meio de celulares e aplicativos, nas redes sociais, nas transmissões esportivas e, cada vez mais, associadas à imagem de atletas, clubes e celebridades.

No Brasil, a expansão das chamadas bets trouxe o tema para o centro do debate público. A facilidade de apostar em poucos segundos, de praticamente qualquer lugar e a qualquer hora, somada à intensa presença das plataformas na publicidade e no esporte, contribuiu para tornar as apostas cada vez mais familiares e socialmente aceitas. Muitas vezes, elas são apresentadas como sinônimo de diversão, emoção e, até mesmo, oportunidade de ganhar dinheiro.

Ao mesmo tempo em que esse mercado se expande, crescem as discussões sobre os impactos que as apostas podem provocar na saúde mental, na vida financeira e nas relações familiares. Mais do que uma questão de entretenimento, o comportamento de apostar pode, em determinadas situações, evoluir para um padrão problemático, marcado pela perda de controle, pelo endividamento e por outros prejuízos.

É nesse contexto que se torna fundamental refletir sobre os mecanismos envolvidos nas apostas, a influência da publicidade, a associação com o esporte e a exposição de crianças, adolescentes e adultos a esse universo.

Este conteúdo tem como base a reflexão apresentada pelo nosso grande amigo e parceiro do Freemind, Dr. João Paulo Becker Lotufo, Vice-Presidente do Núcleo de Estudos de Combate ao Uso de Drogas da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), em seu artigo “Bets, best e bestas”. Publicado originalmente pela SPSP, o texto aborda de forma crítica a expansão das bets, sua relação com o esporte e os riscos associados à dependência de jogos.

A partir dessa contribuição, ampliamos a discussão com informações científicas e dados sobre dependência, saúde mental, publicidade, prevenção, endividamento e responsabilidade, buscando compreender por que as apostas online merecem atenção não apenas como fenômeno econômico e de entretenimento, mas também como uma questão de saúde pública.

 

Mas onde termina o entretenimento e começa o comportamento de risco?

Essa é uma pergunta importante. Afinal, apostar não significa, necessariamente, desenvolver um transtorno. O problema surge quando o jogo passa a ocupar um espaço cada vez maior na vida da pessoa, comprometendo suas relações, seu trabalho, sua saúde mental ou sua situação financeira.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o transtorno do jogo como um comportamento aditivo. Entre suas principais características estão a perda de controle sobre o ato de jogar, a prioridade crescente dada às apostas em relação a outras áreas da vida e a continuidade do comportamento mesmo diante de consequências negativas.

E, antes mesmo que exista um diagnóstico, já podem aparecer prejuízos importantes.

Por isso, compreender os sinais de alerta e os fatores que podem favorecer o desenvolvimento de um comportamento problemático é fundamental para que a prevenção aconteça antes que as consequências se tornem mais graves.

 

Quando apostar deixa de ser apenas diversão?

Uma aposta ocasional, feita como forma de entretenimento, não significa automaticamente que exista um problema. A questão está na relação que a pessoa estabelece com o jogo.

Alguns sinais merecem atenção:

  • gastar mais dinheiro do que havia planejado;
  • aumentar progressivamente os valores apostados;
  • tentar recuperar perdas fazendo novas apostas;
  • esconder das pessoas próximas quanto está sendo apostado;
  • utilizar dinheiro destinado a despesas essenciais;
  • pedir empréstimos ou contrair dívidas para continuar jogando;
  • ficar irritado ou ansioso quando não pode apostar;
  • deixar de lado trabalho, estudos, família ou outras atividades;
  • continuar apostando mesmo depois de perceber os prejuízos;
  • acreditar que uma grande vitória será capaz de resolver problemas financeiros anteriores.

Um dos mecanismos mais perigosos é justamente a tentativa de “recuperar o dinheiro perdido”. Depois de uma sequência negativa, a pessoa pode acreditar que uma nova aposta permitirá recuperar o prejuízo. Em vez de interromper o comportamento, porém, acaba aumentando sua exposição ao risco.

O resultado pode ser um ciclo difícil de romper: perda → tentativa de recuperação → nova aposta → nova perda → aumento do prejuízo.

 

Por que as apostas online podem ser especialmente atraentes?

As plataformas digitais reúnem características que tornam o jogo extremamente acessível.

Não é mais necessário deslocar-se até um estabelecimento específico. O celular permite apostar durante uma partida de futebol, no intervalo do trabalho, em casa ou mesmo durante a madrugada.

Uma revisão sistemática sobre apostas online destaca justamente características como acessibilidade, anonimato e variedade de jogos entre os elementos que tornam esse ambiente particularmente atrativo.

Além disso, a velocidade das apostas pode diminuir o intervalo entre uma decisão e outra. Quanto mais rapidamente a pessoa pode apostar novamente, menor pode ser o tempo disponível para refletir sobre perdas e consequências.

A tecnologia também permite uma exposição constante a notificações, promoções, bônus e estímulos relacionados ao jogo.

Por isso, discutir apostas online não significa apenas discutir a escolha individual de apostar. É necessário compreender também o ambiente no qual essa escolha acontece.

 

O esporte e a normalização das bets

Um dos pontos mais relevantes dessa discussão é a associação entre apostas e esporte.

Durante anos, o esporte foi utilizado para promover diferentes produtos e comportamentos. O cigarro e a bebida alcoólica, por exemplo, estiveram historicamente ligados à imagem de sucesso, celebração, desempenho e pertencimento.

Hoje, as apostas ocupam parte desse espaço.

Clubes, campeonatos, programas esportivos, influenciadores e atletas podem aparecer associados às plataformas de apostas. Para o público, especialmente para os mais jovens, essa repetição pode transmitir a mensagem de que apostar é simplesmente mais um componente natural da experiência esportiva.

A OMS chama atenção justamente para o papel do marketing, do patrocínio esportivo e da comercialização das apostas na normalização do comportamento de jogar.

Isso levanta uma questão de responsabilidade: até que ponto personalidades admiradas devem associar sua imagem a uma atividade que pode provocar danos à saúde?

Não se trata de responsabilizar atletas individualmente pelos problemas relacionados às apostas. Trata-se de reconhecer que a comunicação pública influencia comportamentos e que pessoas famosas possuem um alcance capaz de atingir milhões de indivíduos.

 

A promessa de ganhar dinheiro fácil

Outro elemento que merece atenção é a ideia de que apostar pode ser uma forma de ganhar dinheiro.

As apostas, entretanto, são baseadas em probabilidades e não devem ser apresentadas como estratégia de renda ou caminho para enriquecimento.

A própria regulamentação brasileira estabelece restrições a mensagens publicitárias que apresentem as apostas como forma de enriquecimento ou complementação de renda. O Ministério da Fazenda também destaca que as apostas são atividades baseadas em probabilidade e que o jogo responsável deve buscar prevenir danos financeiros, sociais e relacionados à saúde mental.

Essa distinção é fundamental.

Apostar não é investir.

No investimento, existe uma expectativa de retorno associada a determinados ativos e riscos. Na aposta, o resultado depende de um evento de natureza probabilística e existe a possibilidade concreta de perder o dinheiro colocado em jogo.

Quando essa diferença desaparece na comunicação, aumenta o risco de que pessoas vulneráveis enxerguem a aposta como uma solução para dificuldades financeiras.

 

A relação entre apostas, endividamento e saúde mental

Os prejuízos relacionados ao jogo não se limitam ao dinheiro perdido.

Quando as apostas se tornam problemáticas, podem surgir conflitos familiares, isolamento social, dificuldades profissionais, ansiedade, depressão, sofrimento emocional e endividamento.

A OMS aponta que os danos relacionados ao jogo podem incluir estresse financeiro, problemas de saúde mental, ruptura de relacionamentos, violência familiar e até aumento do risco de suicídio. Também destaca que os prejuízos podem atingir pessoas próximas ao jogador, e não apenas quem aposta.

Isso significa que o problema pode ultrapassar o indivíduo.

Uma pessoa que compromete o orçamento doméstico com apostas pode afetar toda a família. Contas deixam de ser pagas, reservas financeiras desaparecem, dívidas se acumulam e relações de confiança podem ser rompidas.

Em situações mais graves, a tentativa de esconder as perdas pode levar a novos empréstimos, utilização indevida de recursos ou outras formas de obtenção de dinheiro para continuar apostando.

Por isso, falar sobre apostas também é falar sobre proteção financeira, relações familiares e saúde pública.

 

“Só mais uma aposta”: o ciclo da perda

Um dos aspectos mais preocupantes do jogo problemático é a dificuldade de interromper o comportamento mesmo quando a pessoa já percebe que está perdendo.

O pensamento de que “na próxima eu recupero” pode manter o indivíduo preso ao ciclo.

Imagine uma pessoa que começa apostando R$ 20. Perde. Decide apostar R$ 50 para recuperar o valor. Perde novamente. Aumenta para R$ 100. Depois, para R$ 200.

O valor inicial já deixou de ser o principal problema. O que passa a comandar o comportamento é a necessidade de reverter a perda anterior.

Esse mecanismo pode transformar uma pequena aposta em um prejuízo muito maior.

A pessoa deixa de apostar porque quer se divertir e passa a apostar porque precisa recuperar o que perdeu.

Essa mudança de finalidade é um importante sinal de alerta.

 

Quem está mais vulnerável?

Qualquer pessoa pode desenvolver problemas relacionados ao jogo, mas alguns fatores podem aumentar a vulnerabilidade.

A OMS destaca, entre outros, situações de estresse e mudanças importantes na vida, além de condições de vulnerabilidade social e econômica. A exposição intensa à promoção das apostas, especialmente entre crianças e jovens, também é motivo de preocupação.

Adolescentes merecem atenção especial.

Mesmo quando não podem legalmente participar de determinadas modalidades de apostas, estão constantemente expostos ao universo das bets por meio de redes sociais, transmissões esportivas, influenciadores e conversas entre amigos.

A familiaridade precoce com esse comportamento pode contribuir para sua normalização.

Por isso, prevenção não significa apenas dizer “não aposte”. É necessário desenvolver educação financeira, pensamento crítico, compreensão das probabilidades e capacidade de reconhecer estratégias de persuasão utilizadas pela publicidade.

 

“Jogo responsável” é suficiente?

O Brasil já possui regras destinadas à proteção dos apostadores.

A Portaria SPA/MF nº 1.231/2024 estabeleceu diretrizes para o chamado jogo responsável, incluindo medidas relacionadas à prevenção e mitigação de problemas de saúde mental, endividamento, superendividamento e outros problemas sociais. Entre as ferramentas previstas estão limites de apostas, mecanismos de autoexclusão e informações sobre riscos.

Essas medidas são importantes.

Mas a prevenção não pode depender exclusivamente da capacidade individual de cada jogador controlar seu comportamento.

Quando uma atividade está disponível 24 horas por dia, diretamente no celular, cercada por publicidade e estímulos constantes, a proteção precisa envolver também regulação, fiscalização, educação, políticas públicas e acesso ao cuidado.

A própria OMS defende medidas populacionais para reduzir os danos relacionados ao jogo, incluindo restrições à publicidade e ao patrocínio, ferramentas eficazes de limite de perdas e autoexclusão e fiscalização adequada dos operadores.

 

O papel da família na prevenção

Dentro de casa, o diálogo também é uma ferramenta de prevenção.

Pais e responsáveis precisam conversar com crianças e adolescentes sobre dinheiro, publicidade, probabilidades e riscos associados às apostas.

Mais do que proibir, é importante explicar.

Uma criança ou adolescente precisa compreender que aquela imagem de vitória, dinheiro e diversão apresentada em uma publicidade representa apenas uma parte da realidade.

Também é importante observar mudanças de comportamento: preocupação excessiva com resultados esportivos, interesse intenso por apostas, conversas frequentes sobre ganhos e perdas ou contato com plataformas de apostas podem indicar a necessidade de uma conversa mais cuidadosa.

A prevenção começa muito antes de existir um problema.

 

E quando a aposta já se tornou um problema?

O primeiro passo é reconhecer que existe uma dificuldade.

Vergonha, culpa e medo de julgamento podem fazer com que muitas pessoas escondam o comportamento por muito tempo. A OMS destaca justamente o estigma e a vergonha como barreiras importantes para a busca de ajuda.

Por isso, familiares e profissionais precisam evitar abordagens baseadas apenas em críticas ou punições.

O problema não é resolvido simplesmente dizendo para a pessoa “ter força de vontade”.

Quando existe perda de controle e prejuízo significativo, pode ser necessária avaliação profissional e acompanhamento especializado.

A evidência disponível aponta para abordagens como terapia cognitivo-comportamental e entrevista motivacional entre as estratégias utilizadas no tratamento do transtorno do jogo.

Buscar ajuda não significa fracasso.

Significa reconhecer o problema e iniciar um processo de cuidado.

 

Mais do que apostas: uma discussão sobre responsabilidade

A reflexão proposta pelo Dr. João Paulo Becker Lotufo em seu artigo “Bets, best e bestas” ajuda a ampliar essa discussão ao estabelecer paralelos entre a publicidade das apostas e a histórica associação de produtos como cigarro e álcool ao esporte e à cultura.

A questão central não é simplesmente dizer que toda pessoa que aposta desenvolverá dependência.

A questão é reconhecer que existem produtos e comportamentos capazes de produzir danos e que a sociedade precisa discutir como esses riscos são apresentados, regulados e prevenidos.

Assim como aconteceu com o tabaco, determinadas mudanças culturais não acontecem de uma hora para outra. Elas passam pela informação, pela conscientização, pela regulamentação e pela transformação da percepção social sobre determinado comportamento.

As apostas online ainda são um fenômeno relativamente recente em sua atual escala e formato digital. Justamente por isso, a prevenção precisa acompanhar sua velocidade de expansão.

 

Prevenir antes que o prejuízo aconteça

O debate sobre as bets não deve esperar que o endividamento, o sofrimento psicológico ou a ruptura familiar aconteçam para começar.

Prevenir significa reconhecer os riscos antes que eles se transformem em danos maiores.

Significa discutir publicidade e responsabilidade.
Significa proteger crianças e adolescentes da normalização precoce.
Significa ampliar a educação financeira.
Significa oferecer informação baseada em evidências.
Significa garantir caminhos de cuidado para quem perdeu o controle.
E significa compreender que saúde, comportamento, economia e relações sociais estão profundamente conectados.

O desafio está em encontrar um equilíbrio que não banalize os riscos nem transforme todo apostador em uma pessoa doente.

Nem toda aposta é dependência. Mas toda aposta merece ser compreendida dentro de seus riscos, limites e consequências.

E, quando o entretenimento deixa de ser escolha e passa a controlar a vida, é hora de parar, reconhecer os sinais e buscar ajuda.

 

Referências

LOTUFO, João Paulo Becker. Bets, best e bestas. Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP). Texto utilizado como referência para a elaboração deste artigo.
Leia o artigo original na Sociedade de Pediatria de São Paulo

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Gambling. 2024. Documento sobre transtorno do jogo, fatores de risco, impactos à saúde, prevenção e tratamento.

GHELFI, Michela et al. Online Gambling: A Systematic Review of Risk and Protective Factors in the Adult Population. Journal of Gambling Studies, 2024.

BRASIL. Ministério da Fazenda. Jogo Responsável. Secretaria de Prêmios e Apostas. Informações e diretrizes sobre prevenção de danos relacionados às apostas.

BRASIL. Lei nº 14.790, de 29 de dezembro de 2023. Dispõe sobre a modalidade lotérica de apostas de quota fixa e outras providências.

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