Risco entre jovens: por que a nova geração bebe menos álcool, mas usa mais nicotina e apostas online?
Durante décadas, o consumo de álcool foi considerado um dos principais indicadores de comportamento de risco entre adolescentes e jovens adultos. No entanto, estudos epidemiológicos realizados em diferentes países apontam uma mudança consistente nesse cenário: enquanto o consumo de bebidas alcoólicas apresenta tendência de queda entre a Geração Z, observa-se o crescimento do uso de nicotina em dispositivos eletrônicos (vapes), da participação em apostas online e do envolvimento intenso com jogos digitais.
Essa mudança de padrão não significa, necessariamente, uma redução da vulnerabilidade às dependências. Pelo contrário, pesquisadores têm observado uma migração dos comportamentos de risco relacionados ao uso de substâncias para comportamentos mediados por tecnologias digitais, capazes de ativar os mesmos circuitos neurais envolvidos nos processos de recompensa e reforço. Evidências da neurociência mostram que tanto substâncias psicoativas quanto comportamentos como apostar, jogar ou consumir conteúdos digitais de forma compulsiva estimulam a liberação de dopamina em regiões cerebrais ligadas à motivação, ao aprendizado e à busca por prazer.
Além disso, a adolescência representa um período de intensa reorganização cerebral. Áreas responsáveis pelo planejamento, tomada de decisão e controle dos impulsos, como o córtex pré-frontal, ainda estão em desenvolvimento, enquanto os sistemas relacionados à recompensa apresentam elevada sensibilidade. Essa combinação torna os jovens particularmente suscetíveis a estímulos imediatos e repetitivos, especialmente em um ambiente digital caracterizado por notificações constantes, algoritmos personalizados e recompensas imprevisíveis.
Nesse contexto, a redução do consumo de álcool não pode ser interpretada isoladamente como um indicador de melhora na saúde dos jovens. O desafio contemporâneo está em compreender como as novas formas de interação digital estão remodelando os padrões de comportamento, influenciando a saúde mental e exigindo estratégias de prevenção mais abrangentes e atualizadas.
Menos álcool entre jovens: uma tendência consistente
Pesquisas epidemiológicas realizadas nas últimas décadas mostram uma queda consistente no consumo de álcool entre adolescentes e jovens adultos em diversos países. Embora o álcool continue sendo a substância psicoativa mais consumida nessa faixa etária, estudos recentes indicam que sua prevalência vem diminuindo de forma contínua, refletindo mudanças nos padrões de socialização, comportamento e estilo de vida das novas gerações.
Segundo o Monitoring the Future Study 2025 (EUA), um dos mais importantes levantamentos longitudinais sobre o uso de substâncias entre adolescentes nos Estados Unidos, realizado pela University of Michigan, o consumo de álcool permanece nos menores níveis já registrados desde o início da pesquisa, em 1975. Os dados mostram que:
- o consumo de álcool entre adolescentes caiu cerca de 50% nas últimas duas décadas;
- o binge drinking (consumo excessivo de álcool em um curto período) continua apresentando redução consistente;
- a proporção de jovens que relatam não consumir bebidas alcoólicas atingiu níveis historicamente elevados.
Na Europa, os resultados do European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs (ESPAD) apontam uma tendência semelhante. O levantamento, que acompanha estudantes de 15 e 16 anos em dezenas de países europeus, mostra que a prevalência do consumo de álcool nos últimos 30 dias caiu de aproximadamente 47% em 2003 para cerca de 31% em 2019, evidenciando uma redução sustentada ao longo das últimas duas décadas.
Especialistas atribuem essa mudança a uma combinação de fatores, incluindo maior acesso à informação sobre saúde, mudanças culturais nas formas de lazer e socialização, políticas públicas de prevenção, maior presença dos jovens em ambientes digitais e alterações nos hábitos de convivência social. No entanto, os pesquisadores alertam que essa redução do consumo de álcool não significa necessariamente uma diminuição dos comportamentos de risco. Paralelamente, observa-se um crescimento expressivo do uso de cigarros eletrônicos (vapes), das apostas online e de outros comportamentos potencialmente aditivos mediados por tecnologias digitais.
O aumento do vape e da nicotina
Enquanto o consumo de álcool apresenta tendência de queda entre os jovens, o uso de nicotina por meio de cigarros eletrônicos (vapes) continua sendo uma preocupação crescente em diversos países.
Segundo o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), cerca de 10% dos estudantes do ensino médio nos Estados Unidos relataram uso atual de cigarros eletrônicos em 2023, mantendo os vapes como o produto de nicotina mais utilizado por adolescentes. Além disso, a maioria dos jovens usuários de nicotina consome exclusivamente cigarros eletrônicos, sem utilizar cigarros convencionais.
Esse fenômeno é preocupante porque:
- a nicotina é altamente aditiva;
- o cérebro adolescente é mais sensível ao sistema de recompensa;
- há percepção equivocada de menor risco.
Do ponto de vista neurobiológico, a nicotina aumenta a liberação de dopamina, reforçando o comportamento de repetição e facilitando dependência.
A explosão das apostas online
Outro comportamento em forte crescimento entre jovens é o uso de apostas esportivas e jogos online com recompensa financeira.
De acordo com a American Psychiatric Association (APA):
- cerca de 1% a 3% da população geral apresenta transtorno do jogo (gambling disorder);
- entre jovens expostos a apostas digitais, o risco de comportamento problemático é significativamente maior.
Um estudo publicado no Journal of Behavioral Addictions (2022) mostrou que:
- jovens expostos a apostas online têm até 3 vezes mais chance de desenvolver comportamento compulsivo de jogo em comparação com adultos.
O fator central está no sistema de recompensa:
- recompensas imprevisíveis;
- reforço intermitente;
- sensação de “quase ganhar”;
- estímulo constante à repetição.
Esses elementos são altamente eficazes em ativar circuitos dopaminérgicos.
Jogos online e dependência comportamental
Os jogos digitais modernos também passaram a ser desenhados com forte base em psicologia comportamental.
Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde):
- o “Gaming Disorder” foi reconhecido oficialmente em 2019 como condição de saúde;
- afeta uma pequena parcela dos jogadores, mas com impacto significativo na vida social, acadêmica e emocional.
Estudos indicam que entre jovens gamers:
- cerca de 3% a 5% apresentam padrões problemáticos de uso de jogos digitais.
Elementos como recompensas diárias, rankings e microtransações reforçam o engajamento contínuo.
O cérebro da Geração Z não mudou — o ambiente sim
Do ponto de vista da neurociência, não houve mudanças biológicas significativas no cérebro humano nas últimas décadas.
O que mudou foi o ambiente:
- mais estímulos digitais;
- recompensas imediatas;
- acesso constante a conteúdo;
- maior personalização algorítmica.
Isso influencia diretamente o sistema de recompensa cerebral, especialmente a dopamina, que está ligada à motivação e à busca por novidades.
De substâncias para comportamentos: uma transição importante
A literatura científica atual aponta uma mudança relevante:
redução parcial de dependências por substâncias → aumento de dependências comportamentais
Incluindo:
- apostas online;
- uso compulsivo de redes sociais;
- jogos digitais;
- consumo excessivo de vídeos curtos;
- compras impulsivas digitais.
Esses comportamentos ativam os mesmos circuitos cerebrais de recompensa associados a substâncias psicoativas.
O impacto na saúde mental
Essas mudanças estão associadas a fatores como:
- aumento da ansiedade;
- dificuldade de autocontrole;
- busca por alívio emocional imediato;
- maior impulsividade;
- dificuldade de tolerar frustração.
Segundo a OMS, transtornos relacionados à saúde mental entre adolescentes aumentaram cerca de 20% globalmente na última década.
Embora não haja relação única de causa, o ambiente digital e os novos padrões de recompensa são fatores relevantes nesse cenário.
O papel da prevenção
Na perspectiva da Freemind, compreender essas mudanças é essencial para atualizar estratégias de prevenção.
A prevenção contemporânea precisa incluir:
- educação emocional;
- desenvolvimento de autocontrole;
- fortalecimento de vínculos familiares;
- uso consciente da tecnologia;
- compreensão dos riscos das apostas online;
- promoção de hábitos saudáveis.
Mais do que prevenir um único tipo de comportamento, o objetivo é fortalecer a capacidade de escolha e autonomia.
Uma nova geração, novos desafios
A nova geração não está simplesmente “consumindo menos álcool”. Ela está vivendo em um ambiente onde os estímulos de recompensa são mais rápidos, acessíveis e constantes.
Isso desloca parte dos comportamentos de risco tradicionais para novas formas de dependência, especialmente comportamentais e digitais.
O desafio atual da saúde pública não é apenas reduzir o consumo de substâncias, mas compreender como o ambiente digital está moldando a forma como o cérebro busca prazer, alívio e recompensa.
Referências científicas
Monitoring the Future Study 2025 (University of Michigan)
https://monitoringthefuture.org/
National Institutes of Health (NIH). Reported use of most drugs remained low among U.S. teens in 2025.
https://www.nih.gov/news-events/news-releases/reported-use-most-drugs-remains-low-among-us-teens
ESPAD Report 2019 – European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs
https://www.euda.europa.eu/publications/joint-publications/espad-report-2019_en
Relatório oficial do CDC:
https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/72/wr/mm7245a2.htm
Página do CDC sobre Youth and Tobacco Use:
https://www.cdc.gov/tobacco/e-cigarettes/youth.html
CDC – E-cigarette Use Among Youth
https://www.cdc.gov/tobacco/e-cigarettes/youth.html
FDA + CDC – National Youth Tobacco Survey
https://www.fda.gov/tobacco-products/youth-and-tobacco/results-annual-national-youth-tobacco-survey
APA – What Is Gambling Disorder?
https://www.psychiatry.org/patients-families/gambling-disorder/what-is-gambling-disorder
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