Copa do Mundo, álcool e apostas: quando a paixão pelo futebol vira risco?
A Copa do Mundo sempre foi mais do que futebol. É emoção coletiva, encontro entre amigos, família reunida, ruas decoradas, bares lotados, alegria, identidade nacional e paixão. Mas a chegada da Copa do Mundo de 2026 também acende um alerta importante: em um cenário de expansão das apostas esportivas online, forte exposição publicitária e naturalização do consumo de álcool, o maior evento esportivo do planeta pode se tornar também um período de maior vulnerabilidade para comportamentos de risco.
A Copa do Mundo de 2026 será a maior da história: 48 seleções, 104 partidas e sedes distribuídas entre Estados Unidos, Canadá e México, segundo a FIFA (FIFA, 2026). Isso significa mais jogos, mais dias de mobilização, mais telas ligadas, mais oportunidades de consumo e mais estímulos comerciais em torno do futebol.
A pergunta que precisamos fazer é direta: estamos preparados para celebrar o futebol sem transformar a Copa do Mundo em combustível para o consumo abusivo de álcool, o endividamento e a dependência comportamental?
A Copa do Mundo não cria o problema, mas pode amplificar riscos já existentes.
O futebol mobiliza emoções intensas. A cada jogo, há expectativa, frustração, euforia, pertencimento e pressão social. Em muitos contextos, essas emoções aparecem associadas ao consumo de bebidas alcoólicas e, mais recentemente, às apostas esportivas em tempo real.
Esse ambiente merece atenção porque o álcool não é uma substância neutra. A Organização Mundial da Saúde informa que bebidas alcoólicas contém etanol, uma substância psicoativa e tóxica com potencial de causar dependência (OMS, 2024). Em 2019, cerca de 2,6 milhões de mortes no mundo foram atribuídas ao consumo de álcool, e aproximadamente 400 milhões de pessoas viviam com transtornos relacionados ao álcool.
A OPAS/OMS também aponta que o álcool está associado a mais de 200 doenças e agravos, incluindo câncer, doenças cardiovasculares, doenças hepáticas, transtornos mentais, lesões, violência, acidentes de trânsito, perda de produtividade e custos sociais relevantes (OPAS, [s.d.]). Nas Américas, os padrões de consumo são considerados particularmente preocupantes, inclusive pelo consumo excessivo episódico, conhecido como binge drinking.
Durante a Copa do Mundo, esse risco pode ser reforçado por uma falsa sensação de exceção: “é só hoje”, “é dia de jogo”, “todo mundo está bebendo”, “é para comemorar”. O problema é que, quando a exceção se repete por várias partidas, ela pode deixar de ser exceção e virar padrão.
Apostas esportivas e álcool: uma combinação preocupante
O alerta se torna ainda mais grave quando o consumo de álcool aparece associado às apostas esportivas. Um artigo divulgado pelo CISA, com base em estudo publicado no JAMA Network Open, analisou dados de 4.363 adultos nos Estados Unidos, incluindo 1.812 apostadores esportivos. O estudo observou que esses apostadores apresentavam taxas desproporcionalmente mais altas de consumo excessivo de álcool em comparação com não apostadores.
Um dos dados mais fortes do levantamento é que mulheres que apostavam em esportes apresentaram chance cerca de 14 vezes maior de relatar episódios diários ou quase diários de consumo excessivo de álcool em comparação com mulheres não apostadoras. Entre homens, essa chance foi cerca de 9 vezes maior (CISA, 2026). O próprio CISA ressalta que o desenho transversal do estudo não permite afirmar causalidade, mas a associação é suficientemente forte para exigir atenção em saúde pública.
O estudo original do JAMA Network Open reforça que pessoas que apostam em esportes relataram binge drinking com maior frequência do que não apostadores e apostadores de outras modalidades. Os autores destacam ainda que as apostas esportivas se tornaram amplamente acessíveis por aplicativos e sites, e que evidências crescentes associam essa prática ao uso e mau uso de substâncias, especialmente álcool.
Em outra pesquisa publicada em 2025, com jovens adultos de 18 a 29 anos acompanhados por avaliações quinzenais ao longo de um ano, períodos de maior frequência de consumo de álcool estiveram associados a mais apostas, maior valor apostado, maior tendência a “correr atrás do prejuízo” e mais consequências negativas relacionadas às apostas esportivas. Os autores defendem estratégias de prevenção integradas, capazes de separar álcool e apostas como comportamentos que podem se reforçar mutuamente.
O Brasil já vive uma explosão das apostas
No Brasil, o tema deixou de ser marginal. Segundo o DataSenado, 13% dos brasileiros com 16 anos ou mais — cerca de 22,13 milhões de pessoas — declararam ter participado de apostas esportivas nos 30 dias anteriores à pesquisa de 2024 (BRASIL, 2024). O levantamento também apontou maior presença de homens, pessoas mais jovens e indivíduos com ensino médio completo entre os usuários desse tipo de serviço.
O mesmo levantamento revelou um dado socialmente sensível: entre as pessoas que gastaram com apostas por aplicativos ou sites, 58% tinham dívidas em atraso há mais de 90 dias. Esse dado não significa que as apostas sejam a única causa da inadimplência, mas mostra que há uma sobreposição preocupante entre aposta, vulnerabilidade econômica e endividamento.
Dados da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda mostram que, no primeiro semestre de funcionamento do mercado regulado, 17,7 milhões de brasileiros realizaram apostas de quota fixa. O relatório também apontou que 71% dos apostadores eram homens e que a receita bruta das empresas autorizadas chegou a R$ 17,4 bilhões no primeiro semestre, valor que representa o total apostado menos os prêmios pagos (BRASIL, 2025a).
Além disso, a Agência Brasil informou que estudo recente estimou perdas econômicas e sociais associadas às apostas em R$ 38,8 bilhões anuais no país. O mesmo texto menciona a criação de medidas públicas voltadas a pessoas com problemas relacionados ao jogo, incluindo observatório, linha de cuidado e ferramentas de bloqueio voluntário.
Por que a Copa do Mundo pode aumentar a vulnerabilidade?
A Copa do Mundo combina quatro fatores de risco:
- Exposição emocional intensa
Vitória, derrota, tensão, pertencimento e rivalidade aumentam a impulsividade em algumas pessoas. - Consumo socialmente estimulado de álcool
Jogos costumam ser associados a bares, festas, churrascos, encontros e publicidade de bebidas. - Apostas em tempo real
A dinâmica digital permite decisões rápidas, muitas vezes em contexto de excitação emocional e, em alguns casos, sob efeito de álcool. - Normalização social
Quando todos falam de jogo, palpite, resultado e premiação, o comportamento de risco pode parecer apenas diversão.
A Organização Mundial da Saúde reconhece os impactos negativos do jogo na saúde e defende ações multissetoriais para reduzir danos, incluindo monitoramento, regulação efetiva, redução de publicidade e prevenção do estigma, para que as pessoas busquem ajuda sem vergonha ou medo.
O risco para adolescentes e jovens adultos
Embora apostas e álcool tenham restrições legais para menores de idade, adolescentes e jovens são altamente expostos à cultura do futebol, às redes sociais, a influenciadores e à publicidade indireta. Esse é um ponto essencial para famílias, escolas e políticas públicas.
No Brasil, o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em 2025, apontou que, entre adolescentes de 14 a 17 anos, 29,5% das meninas e 25,8% dos meninos já haviam consumido álcool alguma vez na vida. O estudo também destacou preocupação com iniciação precoce e aumento de consumo pesado (BRASIL, 2025b).
A prevenção, portanto, não pode começar apenas quando o problema aparece. Ela precisa ocorrer antes: na conversa em casa, na escola, nas campanhas públicas, na regulação da publicidade e na construção de uma cultura esportiva que não dependa do álcool nem do risco financeiro para ser emocionante.
Sinais de alerta para famílias e amigos não só em tempos de Copa do Mundo
Não só, mas sobretudo durante a Copa do Mundo, vale observar mudanças de comportamento como:
- beber em quantidade maior ou com mais frequência nos dias de jogo;
- assistir aos jogos sempre associado ao consumo de álcool;
- irritação intensa após resultados esportivos;
- preocupação excessiva com palpites, odds, resultados e perdas;
- tentativa de recuperar dinheiro perdido;
- mentiras sobre valores gastos;
- uso de dinheiro destinado a contas, alimentação, transporte ou família;
- isolamento, ansiedade, culpa ou vergonha após apostar ou beber;
- dificuldade de parar, mesmo percebendo prejuízos.
Esses sinais não devem ser tratados com humilhação ou julgamento. Precisam ser vistos como alerta para diálogo, cuidado e, quando necessário, busca de apoio profissional.
O papel da prevenção: celebrar a Copa do Mundo sem adoecer
A Copa do Mundo pode e deve ser celebrada. O problema não está no futebol, na torcida ou na alegria coletiva. O problema está quando a celebração é capturada por uma lógica de excesso: excesso de álcool, excesso de estímulos, excesso de apostas, excesso de publicidade e pouca consciência sobre os danos.
Prevenir não é estragar a festa. É proteger pessoas.
É lembrar que jovens observam os adultos. Que famílias aprendem pelo exemplo. Que escolas e comunidades podem transformar a Copa em oportunidade educativa. Que gestores públicos precisam olhar para os dados. Que a saúde mental e financeira também fazem parte da saúde pública.
A Copa do Mundo de 2026 será histórica. Mas o legado que ela deixará não depende apenas dos gols, das seleções ou dos campeões. Depende também das escolhas que faremos como sociedade.
Vamos transformar a maior festa do futebol em uma oportunidade de consciência, cuidado e prevenção. Porque quando álcool, apostas e vulnerabilidade entram em campo juntos, a pergunta precisa ser feita antes do apito final: E agora?
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Referências:
BRASIL. Senado Federal. Mais de 22 milhões de pessoas apostaram nas “bets” no último mês, revela DataSenado. Senado Notícias, Brasília, 1 out. 2024. Acesso em: 13 maio 2026.
BRASIL. Ministério da Fazenda. No primeiro semestre, 17,7 milhões de brasileiros realizaram apostas de quota fixa e ultrapassou-se o total de 15 mil sites ilegais bloqueados. Brasília: Ministério da Fazenda, 26 ago. 2025a. Acesso em: 13 maio 2026.
BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Estudo do MJSP revela queda no número de brasileiros que bebem álcool, mas alerta para consumo excessivo. Brasília: MJSP, 24 set. 2025b. Acesso em: 13 maio 2026.
CENTRO DE INFORMAÇÕES SOBRE SAÚDE E ÁLCOOL — CISA. Apostas esportivas e consumo excessivo de álcool: uma associação preocupante. São Paulo: CISA, 6 abr. 2026. Acesso em: 13 maio 2026.
GRUBBS, Joshua B.; KRAUS, Shane W. Binge drinking among sports gamblers. JAMA Network Open, v. 7, n. 4, e245473, 2024. DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2024.5473. Acesso em: 13 maio 2026.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE — OMS. Alcohol. Geneva: World Health Organization, 28 June 2024. Acesso em: 13 maio 2026.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE — OMS. Gambling. Geneva: World Health Organization, 2 Dec. 2024. Acesso em: 13 maio 2026.
ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE — OPAS. Álcool. Washington, D.C.: OPAS, [s.d.]. Acesso em: 13 maio 2026.
FÉDÉRATION INTERNATIONALE DE FOOTBALL ASSOCIATION — FIFA. FIFA World Cup 2026. Zurich: FIFA, 2026. Acesso em: 13 maio 2026.
