Nos últimos anos, o Brasil tem testemunhado um crescimento acelerado das apostas online, popularmente conhecidas como “bets”. O que antes era visto como entretenimento ocasional tornou-se um fenômeno social, econômico e, principalmente, de saúde pública. Em 2026, o próprio Ministério da Saúde levou o tema à agenda da Organização Mundial da Saúde, alertando sobre os impactos das apostas digitais na saúde mental e no bem-estar da população.
A facilidade de acesso, a disponibilidade 24 horas por dia, a publicidade massiva e a gamificação dessas plataformas têm contribuído para o aumento de casos de compulsão, endividamento, ansiedade, depressão e até comportamento suicida.
O que é a dependência em apostas?
A dependência em apostas, também conhecida como ludopatia ou transtorno do jogo, é reconhecida no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders como um transtorno relacionado ao comportamento aditivo.
Ela se caracteriza por um padrão persistente e recorrente de comportamento de jogo que leva a prejuízos significativos na vida pessoal, familiar, social e financeira.
Entre os principais sinais estão:
- necessidade de apostar quantias cada vez maiores;
- dificuldade de parar ou controlar o comportamento;
- irritação ou ansiedade ao tentar parar;
- mentiras para esconder o vício;
- prejuízos financeiros;
- comprometimento de relacionamentos e trabalho.
Como as apostas afetam o cérebro?
Do ponto de vista neurocientífico, as apostas ativam o chamado sistema de recompensa cerebral, especialmente a liberação de dopamina — neurotransmissor associado ao prazer e à motivação.
O diferencial das apostas online está no chamado reforço intermitente, um mecanismo psicológico poderoso em que recompensas imprevisíveis mantêm o usuário engajado.
É o mesmo princípio observado em:
- caça-níqueis;
- redes sociais;
- videogames;
- outras dependências comportamentais.
Essa imprevisibilidade faz com que o cérebro permaneça em estado constante de expectativa, aumentando a compulsão.
A explosão das “bets” no Brasil
Desde a regulamentação das apostas esportivas em 2018, houve uma explosão no número de plataformas no país.
Empresas como Betano, Sportingbet e Blaze se popularizaram com campanhas publicitárias intensas, muitas delas associadas ao futebol, influenciadores e celebridades.
Dados recentes apontam que milhões de brasileiros apostam regularmente, movimentando bilhões de reais por mês. Um estudo estimou que os prejuízos econômicos e sociais relacionados às apostas online no Brasil podem chegar a R$ 38,8 bilhões ao ano, sendo grande parte ligada ao sofrimento psíquico e à saúde mental.
Os impactos na saúde mental
As consequências das apostas vão muito além do prejuízo financeiro.
Estudos mostram associação com:
- ansiedade;
- depressão;
- estresse crônico;
- insônia;
- isolamento social;
- impulsividade;
- ideação suicida.
Quando o indivíduo perde dinheiro, tenta recuperar apostando novamente — comportamento conhecido como “perseguir perdas”.
Esse ciclo gera:
esperança → aposta → perda → culpa → ansiedade → nova aposta
Em casos mais graves, o colapso emocional pode levar ao risco de suicídio.
Jovens e adolescentes: um grupo vulnerável
Os jovens são especialmente vulneráveis devido a fatores como:
- impulsividade;
- busca por recompensa imediata;
- influência digital;
- publicidade agressiva.
Apostas esportivas estão fortemente ligadas ao universo do futebol, streamers, influencers e redes sociais, tornando o comportamento mais “normalizado”.
Mesmo com restrições legais para menores, o acesso ainda ocorre de forma facilitada.
Impacto familiar e social
A dependência em apostas não afeta apenas o indivíduo.
Ela pode gerar:
- endividamento familiar;
- conflitos conjugais;
- perda de patrimônio;
- afastamento social;
- problemas no trabalho;
- negligência parental.
Muitas famílias vivenciam sofrimento silencioso, semelhante ao observado em casos de dependência química.
Apostas online como questão de saúde pública
O aumento da procura por tratamento fez com que o Sistema Único de Saúde iniciasse em 2026 um serviço de teleatendimento gratuito para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas, por meio do app Meu SUS Digital.
Além disso, especialistas defendem:
- regulamentação mais rígida;
- controle de publicidade;
- campanhas educativas;
- prevenção nas escolas;
- ampliação do acesso ao tratamento.
Prevenção e tratamento
O tratamento pode envolver:
- psicoterapia, especialmente Terapia Cognitivo-Comportamental;
- acompanhamento psiquiátrico;
- grupos de apoio;
- educação financeira;
- suporte familiar.
A “epidemia das bets” exige atenção urgente da sociedade, das famílias, dos profissionais de saúde e do poder público.
Reconhecer os sinais precocemente e buscar ajuda pode evitar consequências devastadoras.
As apostas online deixaram de ser apenas entretenimento para se tornarem um fenômeno que impacta diretamente a saúde mental, a economia e as relações sociais.
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