Cigarro eletrônico em jovens: riscos, dependência e o papel da família na prevenção. VALE A PENA CORRER ESSE RISCO?
A prevenção começa antes do problema aparecer. E, muitas vezes, começa dentro de casa.
Ao longo de toda a trajetória do Freemind, contamos com a presença de profissionais que não apenas estudam o tema das dependências, mas vivem diariamente o desafio de preveni-las. Um desses nomes é o Dr. João Paulo Becker Lotufo, parceiro histórico do Freemind, presente em todas as edições do Congresso desde a sua fundação e uma das maiores referências do Brasil quando falamos em prevenção ao uso de álcool, tabaco e outras drogas entre crianças e adolescentes.
Neste artigo, publicado originalmente para a imprensa, o Dr. Lotufo traz uma reflexão direta, provocadora e baseada em evidências sobre um tema que preocupa cada vez mais famílias: o avanço do cigarro eletrônico entre jovens.
Com linguagem acessível, mas sustentada por conhecimento científico e experiência clínica, ele nos conduz a uma pergunta simples — e poderosa:
Vale a pena correr o risco?
A seguir, publicamos o artigo na íntegra, de responsabilidade exclusiva de seu autor.
VALE A PENA CORRER O RISCO?
Como eu sou pediatra, sempre me pedem, nos congressos de médicos de adulto, falar sobre assuntos pediátricos, como “Abstinência de drogas nos berçários” ou “Tratamento de tabagismo nos adolescentes”. Quando fui falar sobre este tema, usei a experiência do saudoso Dr. Wilson Rocha, de Belo Horizonte, no primeiro congresso de pneumologia pediátrica em 1984, se minha memória não falha: Ele iria falar sobre medicamentos para a tosse. Eu, recém-formado estava na primeira fila. Ele subiu ao palco e disse em alta e “humilde” voz: AGRADEÇO A OPORTUNIDADE DE FALAR SOBRE ESTE DIFÍCIL TEMA “MEDICAMENTOS PARA A TOSSE”, E ENCERRO MINHA PALESTRA DIZENDO QUE NÃO HÁ MEDICAMENTOS PARA A TOSSE. MUITO OBRIGADO PELA OPORTUNIDADE! Desceu do palco e foi embora. Nunca vou esquecer a feição daqueles que estavam na mesa. Aí ele voltou e fez uma brilhante palestra sobre qual a causa da tosse, falou sobre a codeína etc. Isto faz 40 anos, mas lembro-me como se fosse hoje. 20 anos depois, subi ao palco aqui em São Paulo e disse à plateia: “Não precisam se preocupar com o tratamento do adolescente para parar de fumar, porque eles não nos procuram para tal.
Abri um horário do meio-dia às 13h para um ambulatório para alunos da USP. Após 30 dias aguardando os 6 mil alunos fumantes do campus (na época 20% da população fumava), vieram dois alunos na faixa dos 50 anos (da pós-graduação) que queriam a goma de nicotina para mascar, e nunca mais voltaram. O jovem não nos procura para parar de fumar. A idade em que isto ocorre é dos 50 a 60 anos, quando as doenças estão aparecendo.
Hoje, com o cigarro eletrônico (CE), os jovens e os pais estão descobrindo a forte dependência de nicotina que os impossibilita de assistir uma aula completa sem sair da sala para vaporizar, ou até vaporizar no fundão da sala, pois na fumaça exalada não tem cheiro. Hoje você não fuma mais, você vaporiza. Marketing de uma indústria maligna que aumentou a concentração de nicotina nos chamados cigarros eletrônicos, para viciar cada vez mais jovens e cada vez fazer mais dependentes que irão fumar por muitos anos. Serão consumidores por longo tempo. Quem os consome tem 5 a 6 x mais nicotina em sua dosagem sanguínea, quando comparado com o cigarro tradicional. A dependência é maior e a dificuldade de parar de consumir também.
Lançados como alternativa de uso de nicotina que faria menos mal ao indivíduo, está causando doenças mais precoces e tão graves quanto o enfisema (DPOC) já conhecido. Falar para o jovem que o CE faz mal não é tão simples porque a opinião dos jovens é formada pela internet e pelo boca a boca e as Fakes News tomam conta da internet. O líquido que vaporiza a nicotina tem metais pesados, substâncias cancerígenas, os sabores têm gordura e causam pneumonias lipoídicas, e assim vai.
Pais “modernos tipo amigão” consomem Cigarro Eletrônico junto com os filhos ou fumam maconha com os colegas dos filhos desprezando a possibilidade de doenças. Não é todo mundo que fuma que vai ter problemas respiratórios ou canceres de todos os tipos, como não é todo mundo que vai ter doenças causadas pelo CE. Temos que olhar a genética da família. Meu pai e tios morreram de câncer, eu tenho a possibilidade de ter o mesmo fim, mas se eu fumar, aumenta 10 x esta chance.
Vale a pena correr o risco?
Todos começam com as drogas lícitas (álcool e tabaco, hoje álcool e cigarro eletrônico) e alguns vão partir para as drogas ilícitas e ter um fim catastrófico. Repito, Vale a pena correr esses riscos?
Se eu tivesse uma medida a ser implantada na sociedade seria fazer os pais pararem de fumar e/ou beber: se fumam, 50% de chance de os filhos repetirem o hábito e se não fumam apenas 2% podem partir para as drogas lícitas e/ou ilícitas; se bebem, 25% de chance dos filhos repetirem o hábito, se não bebem 1%. Conhecem alguma medida que diminui drasticamente o consumo ou a experimentação de álcool e cigarros?
Pais, abram os olhos e acompanhem de perto os seus filhos, pois não é incomum os pais descobrirem que a(o) filha(o) de 16 anos fuma CE desde os 12. Começou brincando com os amigos e hoje consome diariamente. Por isso que digo e reafirmo no meu livro “Álcool, Tabaco, Maconha e Cigarro Eletrônico são Drogas Pediátricas”, pois o consumo começa muito cedo. Vale a pena correr o risco?
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Dr. João Paulo Becker Lotufo – Doutor em Pediatria pela Universidade de São Paulo; Representante da Sociedade Brasileira de Pediatria nas ações de combate ao álcool, tabaco e drogas. Ex-responsável pelo Núcleo de Combate ao uso de Drogas por Crianças e Adolescentes na SPSP. Membro da Comissão de Combate ao Tabagismo da Associação Médica Brasileira (AMB). Diretor Clinico do Hospital Universitário da USP, Responsável pelo Projeto Antitábagico do Hospital Universitário da USP. Responsável pelo Projeto Dr Bartô e os Doutores da Saúde – Projeto de Prevenção de Drogas no Ensino Fundamental e Médio
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