Operadores de infraestrutura social no Brasil

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O Freemind compreende que promover transformação social exige mais do que boas iniciativas: é preciso criar condições para que elas sejam sustentáveis, estruturadas e capazes de gerar impacto permanente. Afinal, organizações que acolhem, educam, recuperam e promovem cidadania desempenham um papel essencial para o desenvolvimento do país e merecem ser reconhecidas não apenas pelo propósito que carregam, mas pela função estratégica que exercem na construção de uma sociedade mais justa e resiliente.

Apresentamos a seguir o conteúdo institucional produzido pelo Marcos de Oliveira, Presidente da Arcanjos, patrocinadora do 11º Congresso Internacional Freemind 2026.  O material aborda a importância de reconhecer as organizações do terceiro setor como verdadeiros operadores de infraestrutura social, responsáveis por sustentar serviços essenciais que promovem acolhimento, educação, inclusão e desenvolvimento comunitário. Apesar do impacto que geram, essas instituições ainda enfrentam dificuldades para acessar recursos, pois seu valor social não é devidamente mensurado pelos modelos tradicionais de financiamento. A proposta é fortalecer a chamada economia de impacto, criando mecanismos que permitam medir, reconhecer e financiar essas organizações, garantindo mais sustentabilidade e ampliando sua capacidade de transformar vidas e contribuir para o desenvolvimento do país. Essa visão fortalece iniciativas como o Freemind, que acredita na valorização do impacto social como um ativo estratégico, capaz de impulsionar modelos mais sustentáveis, ampliar oportunidades de investimento e garantir que projetos transformadores continuem gerando resultados duradouros para a sociedade.


Este é um conteúdo autoral. As informações e opiniões expressas são de responsabilidade exclusiva do  autor.

 

 

Operadores de infraestrutura social no Brasil

Quando se fala em infraestrutura, normalmente pensamos em estradas, pontes, aeroportos, redes de energia ou sistemas de transporte. São estruturas indispensáveis para o desenvolvimento econômico, amplamente reconhecidas, planejadas e financiadas. No entanto, existe uma outra infraestrutura, silenciosa, que sustenta diariamente milhares de vidas e contribui para a estabilidade social do país, mas que raramente é percebida dessa forma: a infraestrutura social.

A infraestrutura que ampara o país e não aparece em planilha nenhuma

Uma infraestrutura é aquilo de que tudo mais depende para funcionar. E a forma mais clara de enxergar essa dependência é observar o que acontece quando ela falha. Se um porto para, a exportação para. Se uma linha de transmissão cai, a indústria para. A rede de organizações sociais obedece à mesma lógica, só que de forma invisível. Quando um abrigo fecha, quando uma comunidade terapêutica perde o financiamento, quando uma escola comunitária não consegue pagar as contas, a falha não desaparece. Ela reaparece no hospital, na delegacia, na fila da assistência, na rua. Alguém vai arcar com aquele custo, e quase sempre é o poder público, muitas vezes com custos ainda mais altos.

É por isso que essas instituições são infraestrutura no sentido técnico, e não como força de expressão. Elas carregam o peso que o Estado não consegue suportar e que o mercado não vê como sua responsabilidade. A diferença é que uma rodovia tem traçado, contrato e tarifa, enquanto essa rede aparece, no máximo, como linha de despesa ou como doação. Nunca como ativo.

Acho que esse é o ponto. O país construiu planilhas sofisticadas para medir a concessão de rodovias e de energia, mas não tem onde registrar a infraestrutura que ampara pessoas. E o que não se mede não entra no orçamento, não atrai investimento e não vira política de Estado. Fica entregue ao improviso.

 

Operadores de infraestrutura social: dando nome a quem acolhe

Tudo o que não tem nome é difícil de enxergar, e mais difícil ainda de financiar. Por isso, vale a pena cunhar um termo para essa rede: operadores de infraestrutura social. Mais que um nome, é uma categoria. Um operador de infraestrutura social é toda instituição cuja atividade principal gera impacto social, ambiental, comunitário, educacional, cultural ou assistencial mensurável.

Na prática, esses operadores já estão por toda parte. São os abrigos que recebem quem não tem para onde ir, as escolas comunitárias das periferias, as cooperativas de reciclagem que organizam a renda de catadores, as ONGs ambientais que protegem nascentes e florestas, a agricultura familiar que abastece a merenda de uma cidade inteira, as casas que cuidam de idosos e de crianças. Cada uma resolve, no seu setor e região, um problema que seria do Estado ou que ficaria simplesmente sem solução.

Dar um nome a esse conjunto não resolve nada sozinho. Mas é a condição para que ele exista aos olhos de quem decide. Uma categoria pode ser medida, comparada, regulada e financiada. Uma “boa causa” avulsa, não. Enquanto essas instituições forem tratadas caso a caso, como exceções, vão seguir disputando doação em vez de acessar investimento. Nomear o conjunto é o primeiro passo para abrir caminho para a economia de impacto.

 

Essenciais, mas tratadas como risco

Há uma contradição no cerne dessa questão. Os operadores de infraestrutura social atuam exatamente onde ninguém mais quer ou consegue chegar. São essenciais justamente porque ocupam o vão entre o poder público e a iniciativa privada. E, no entanto, no momento de buscar financiamento ou acessar recursos estrangeiros, essas organizações são tratadas como risco.

O problema não é má vontade do banco ou do investidor. É a régua. Uma análise de crédito examina faturamento, garantia real, fluxo de caixa e histórico. Um abrigo, uma cooperativa de catadores ou uma escola comunitária pouco têm a apresentar nessas colunas, por mais valor que entreguem todos os dias. O resultado é quase automático: ou são avaliados como uma empresa comum, e reprovados, ou enquadrados na categoria de alto risco. Nos dois caminhos, a porta se fecha. Sem crédito, sem garantia, sem investimento.

O que resta é a doação, sempre incerta quanto ao momento e ao valor. Uma instituição que depende de campanha emergencial não consegue planejar, contratar, manter equipe nem crescer. Ela apenas administra a escassez. E aqui está o que costuma passar despercebido: o sistema não está dizendo que essas organizações não têm valor. Está dizendo que não sabe medir o valor que elas têm. E o que não se sabe medir, o mercado financeiro trata, por precaução, como risco.

 

Quando o impacto deixa de ser caridade e vira ativo

Impacto precisa deixar de ser visto como gesto de bondade. Precisamos reconhecer que impacto positivo possui valor econômico, no sentido mais concreto do termo. Quando uma comunidade terapêutica devolve uma pessoa à vida produtiva, há um custo público que deixa de existir e uma renda que passa a existir. Quando uma escola comunitária mantém uma criança estudando, há um futuro que se torna mais provável e uma despesa social que o país não terá de pagar mais tarde. Esse valor é real, mensurável e verificável. Ele apenas nunca foi registrado.

Sei que essa ideia desperta um receio legítimo, sobretudo em quem dedica a vida ao terceiro setor: reconhecer o impacto como ativo não seria transformar o bem em mercadoria? Acredito que seja o contrário. Medir o valor do que essas organizações entregam não mercantiliza a ação social. Ele, na verdade, valoriza o que essas instituições já realizam e que, por falta de medida, vinha sendo tratado como se não valesse nada, justamente por nunca ter sido contabilizado. O fim permanece o mesmo: acolher, educar, recuperar, preservar. O que muda é que esse fim deixa de depender apenas da generosidade e passa a se sustentar.

É desse reconhecimento que nasce a economia de impacto: um campo em que o resultado social e ambiental, devidamente medido, vale tanto quanto o resultado financeiro, porque também é um resultado financeiro. O propósito segue no centro, agora com a solidez que só os ativos oferecem. Uma vez que o impacto pode ser medido e verificado, ele pode ser financiado. Essa é a porta que abro a seguir.

 

O capital existe, a ponte não

Pode parecer que o obstáculo seja a falta de dinheiro, mas é o contrário. Há trilhões de dólares no mundo procurando exatamente esse tipo de destino. Fundos de impacto, títulos verdes, sociais e de sustentabilidade movimentam um volume que cresce todos os anos, e a maior dificuldade desses investidores é encontrar projetos confiáveis e auditáveis onde aplicá-lo. Existe demanda reprimida por bons ativos de impacto. E existe, do outro lado, uma rede inteira de operadores de infraestrutura social que são, em essência, esses ativos.

O problema é que os dois mundos não se encontram. De um lado, o investidor que precisa de previsibilidade, comparabilidade e garantia. De outro, organizações que entregam impacto real, mas não conseguem traduzir o que fazem para a linguagem que esse capital exige. Falta o básico, e o básico aqui tem nome: um selo que ateste o impacto, uma certificação confiável e uma régua de medição reconhecida. Sem esse instrumento comum, cada lado fala uma língua, e a ponte nunca se constrói.

Não é um detalhe técnico menor. É a diferença entre uma economia de impacto que existe apenas no discurso e uma que de fato funciona. Enquanto não houver um padrão de medição em que investidor e operador confiem, o capital seguirá ao mesmo tempo disponível e inacessível, e a rede que mais precisa dele continuará à margem desse fluxo.

 

Precisamos de régua para os operadores de infrasocial

Em alguns países, o impacto já é tratado como categoria jurídica e econômica. Vizinhos como Colômbia, Peru e Uruguai criaram as Sociedades de Benefício e Interesse Coletivo, figura que dá reconhecimento legal a empresas comprometidas, por estatuto, com impacto social e ambiental. Investimento de impacto e os títulos sociais e verdes já contam com padrões de medição reconhecidos, que traduzem o que uma organização entrega em informação comparável e auditável.

Esses avanços, porém, miram as empresas com fins lucrativos. O que ainda não existe é uma política pública pensada para garantir a sustentabilidade do terceiro setor: as organizações sem fins lucrativos que geram impacto social e que, justamente por não visarem lucro, não cabem na régua de uma empresa comum. São entidades de outra natureza, e precisam de outra régua, capaz de ajudá-las a sair do endividamento e a acessar financiamento com critérios próprios.

O Brasil reúne condições raras para ocupar esse lugar: temos uma das maiores redes de organizações sociais do mundo. Deveríamos ser um destino natural desse investimento, mas a vantagem segue travada por falta de regras. Destravá-la depende de política pública: regras que reconheçam o impacto como ativo, uma certificação confiável e uma medida comum, com segurança jurídica para quem investe e para quem opera.

A pergunta que de fato importa é o que isso muda para o país. Um Brasil que aprende a enxergar, medir e sustentar uma rede de operadores de infraestrutura social é um Brasil em que a dignidade deixa de ser sorte e passa a ser estrutura. Acolher, educar e recuperar quem precisa não depende da generosidade que aparece num ano e some no outro, e sim de uma base que se mantém de pé de forma perene. Reconhecer o impacto social como ativo é, no fundo, uma escolha sobre que tipo de sociedade queremos ser: uma que valoriza e reconhece o trabalho do terceiro setor como parte essencial dela, não como exceção tolerada à margem.

 

Veja esse e outros conteúdos em: https://segundaleitura.substack.com/p/operadores-de-infraestrutura-social