Empreendedorismo, propósito e transformação social

Compartilhe agora!

Empresas que transformam vidas: a proposta da Arcanjos para fortalecer o terceiro setor

O fortalecimento das instituições sociais, a sustentabilidade financeira do terceiro setor e o papel do empreendedorismo na transformação da sociedade são temas cada vez mais relevantes para quem acredita na construção de um futuro mais justo e solidário. Nesse contexto, iniciativas que unem gestão, inovação e compromisso social demonstram que é possível gerar impacto positivo de forma estruturada e duradoura.

Para aprofundar essa reflexão, apresentamos a seguir um conteúdo institucional da Arcanjos, patrocinadora do 11º Congresso Internacional Freemind 2026. A organização atua no fortalecimento de instituições de acolhimento por meio da profissionalização da gestão, do aprimoramento da governança e do desenvolvimento de estratégias voltadas à promoção da autonomia e da sustentabilidade financeira.

Marcos Oliveira, presidente da Arcanjos, compartilha a trajetória da Arcanjos, os desafios enfrentados pelo terceiro setor, a importância da gestão para ampliar o impacto social e a visão da instituição sobre o papel do empresariado na construção de um legado que vai além dos resultados financeiros.

Essa parceria fortalece o propósito comum de incentivar iniciativas que unem ciência, gestão e responsabilidade social para transformar vidas.

 

Este é um conteúdo autoral. As informações e opiniões expressas são de responsabilidade exclusiva do autor.

 

 

Especial Arcanjos –  8 perguntas para Marcos Oliveira

1. Embora a expressão ‘capitalismo selvagem’ seja frequentemente utilizada para criticar modelos voltados exclusivamente ao lucro, iniciativas inspiradoras como as da ARCANJOS demonstram como a força do empreendedorismo e da geração de riqueza também pode ser direcionada à transformação social. Como nasceu essa visão de unir dinamismo econômico e compromisso social em um mesmo propósito?

Eu começaria desfazendo uma oposição que me parece falsa. A ideia de um “capitalismo selvagem” pressupõe que gerar riqueza e cuidar do outro são forças que se anulam, mas a minha experiência diz exatamente o contrário. Empreender é, no fundo, a disciplina de transformar recursos escassos em resultados duradouros, e é precisamente disso que o terceiro setor mais precisa. As instituições de acolhimento que conheço têm propósito de sobra e estrutura administrativa de menos; sobrevivem no improviso, reféns da doação do mês. A visão da Arcanjos surgiu quando entendi que nós poderíamos oferecer a elas não apenas recursos, mas método: a mesma governança que torna uma empresa perene. O empresário brasileiro tem um papel que ainda não assumiu por inteiro: tratar a sustentabilidade dessas instituições como parte de sua responsabilidade, e não como gesto eventual de generosidade. Não se trata de domar o capitalismo, mas de lembrá-lo para que ele também serve.

 

2. Grande parte das instituições de cunho social nasce a partir de um marco ou de um acontecimento transformador. No caso da ARCANJOS, qual foi o momento mais marcante e inesquecível que inspirou o início de toda essa trajetória?

Não houve um momento específico; houve um percurso. A Arcanjos deve sua existência a uma série de encontros e conversas que, ao longo do tempo, tornaram impossível permanecer indiferente. As primeiras ideias começaram entre amigos, em conversas que se repetiam e que sempre giravam em torno da mesma inquietação. Existe entre nós uma convicção de que o vício, a dependência química, a ruína provocada pelo álcool e pelas drogas, são problemas que acontecem apenas com pessoas distantes de nós e que esses problemas nunca vão atingir a nossa família. É uma ilusão que nos protege do desconforto e nos dispensa da ação. Porém, essas histórias circulam muito mais perto de cada família brasileira do que nos permitimos reconhecer. Como viver em comunidade diante do sofrimento alheio e não fazer nada a respeito? Como desejar uma sociedade mais justa e delegar sempre a outros a tarefa de construí-la? É fácil dizer que o problema não é nosso e cruzar os braços. Iniciamos por tentar conhecer mais de perto esta realidade. Conhecemos as casas de acolhimento por dentro, os que as dirigem e os que nelas encontram abrigo. Descobrimos instituições admiráveis, sustentadas por uma devoção que raramente se vê, e ao mesmo tempo desamparadas naquilo que nós, vindos do mundo empresarial, saberíamos oferecer. Cada visita tornava mais difícil justificar a nossa distância. Decidimos que estava na hora de nos unirmos, entender as necessidades das instituições de acolhimento, dos acolhidos e pensarmos como poderíamos, através da Arcanjos, apoiar e oferecer soluções.

 

3. Seguindo nessa linha sobre o surgimento da ARCANJOS, quais desafios mais comuns observados nas instituições sociais inspiraram a criação de modelos de atuação voltados à sustentabilidade e ao fortalecimento dessas entidades?

Se eu tivesse que reduzir tudo a um único desafio, seria este: as instituições que melhor sabem cuidar são as que pior conseguem se sustentar. Não por incompetência, mas porque o cuidado consome tudo: tempo, energia, pessoas, e sobra pouco para a parte que ninguém vê e todo financiador cobra. Muitas instituições vivem no improviso administrativo, dependentes de um fundador que não pode adoecer nem se ausentar, sem a governança que daria segurança a quem doaria recursos maiores. E é aqui que mora um paradoxo interessante: o capital existe, a vontade de doar existe, mas não encontra do outro lado a estrutura que lhe dê confiança. O recurso fica parado de um lado, a necessidade transborda do outro, e entre os dois há um abismo que é puramente administrativo, não de mérito ou de causa. Foi enxergar esse abismo que deu origem ao modelo da Arcanjos. Antes de oferecer recursos, oferecemos método: governança, profissionalização, a estrutura que transforma uma instituição admirável numa instituição financiável. O recurso nunca foi o primeiro problema. O primeiro problema sempre foi a ponte que faltava para alcançá-lo.

 

4. É natural que, nos primeiros passos de qualquer instituição, surjam desafios ao longo do caminho. No caso da ARCANJOS, quais foram esses desafios e de que forma eles contribuíram para o fortalecimento e a consolidação da instituição?

O desafio que mais nos formou não foi técnico, foi humano: conquistar a confiança necessária para analisar a parte mais sensível de uma instituição: sua gestão financeira. Ela é sensível em qualquer organização. No terceiro setor, a gestão costuma estar nas mãos de alguém que a assumiu por dedicação, não por ofício. O voluntário que aceitou a função porque não havia outro. Compreendemos que chegar como quem fiscaliza seria fechar todas as portas de uma vez. O que víamos quase nunca era desleixo; era a consequência natural de se cobrar gestão de quem nunca recebeu os recursos e o treinamento para gerir. Às vezes o problema era apenas uma falta de organização: um projeto simples que se perde porque ninguém define prazo, ordena documentos, conduz a entrega. Esse foi o aprendizado que consolidou a Arcanjos: o nosso trabalho não começa nos números, começa na confiança. Aprendemos a entrar como parceiros, não como juízes; a reconhecer antes de corrigir. Cada resistência que vencemos com paciência nos tornou melhores naquilo que hoje é o coração: diagnosticar ao lado da instituição, nunca acima dela.

 

5. Além da documentação formal necessária para pleitear o apoio da ARCANJOS, quais características e iniciativas dessas instituições sociais costumam mais surpreender positivamente em suas atuações, demonstrando vocação para receber apoio e fortalecimento?

Qualquer instituição do terceiro setor está convidada a se candidatar para se tornar uma instituição apoiada pela ARCANJOS. Respondendo a sua pergunta, um dos aspectos que mais nos surpreende (e mais valorizamos) é encontrar uma instituição capaz de medir o próprio impacto gerado. Quando uma organização traduz o que faz em números, ela não está reduzindo pessoas a estatísticas. Está demonstrando que conhece a real dimensão do bem que produz, e que o respeita o bastante para não o deixar invisível. Ali, cada número é um nome: alguém que foi acolhido, uma noite a menos na rua, uma pessoa que conseguiu sair da dependência química. Essa capacidade de contar revela uma instituição que se enxerga com lucidez, que sabe onde está e aonde deseja chegar. E essa clareza é, para nós, o sinal mais confiável de uma instituição que está mais pronta para receber recursos financeiros. Não exigimos que essa maturidade já exista de antemão. Quando existe, ela nos encanta, e quando ainda não existe, é uma das primeiras sementes que ajudamos a plantar. Medir o próprio impacto é, no fundo, um gesto de respeito pela causa, por quem doa e, sobretudo, por quem é cuidado.

 

6. No site da ARCANJOS consta a seguinte frase: ‘Desenvolvimento de novas alternativas de receitas acessórias para contribuir com a sustentabilidade financeira das instituições apoiadas.’ Nesse contexto, como podemos compreender o conceito de ‘receitas acessórias’ e de que forma essas iniciativas contribuem para a autonomia e a sustentabilidade das entidades sociais?

Receitas acessórias são, em essência, os recursos que a própria instituição aprende a gerar, em vez de apenas depender de doações. Uma doação chega quando alguém decide doar. Uma receita acessória chega todo mês, porque nasce de dentro. Dou um exemplo concreto. Uma casa de acolhimento que aprende a produzir e vender bolos para o comércio local: alguém capacita voluntários, compram-se os insumos e a venda se torna uma entrada de recursos com a qual a instituição passa a contar mensalmente. Deixa de viver no improviso e passa a sustentar parte da sua operação. Como nós ajudamos as instituições apoiadas? Antes de propor qualquer coisa, procuramos entender a vocação do local. O que a região consome, do que ela carece, o que ali faz sentido e, sobretudo, a vocação dos voluntários. Às vezes, um dos caminhos é gerar receita; outras vezes é reduzir custos, como uma horta que diminui sensivelmente o gasto com a alimentação dos próprios residentes. Os dois movimentos conduzem ao mesmo destino: menos dependência, mais autonomia.

 

7. Além de seu próprio exemplo referencial, que mensagem a ARCANJOS gostaria de transmitir aos empresários que podem ser sensibilizados e que possam e motivar a transformar resultados financeiros em legados sociais duradouros?

Mais do que uma mensagem, eu gostaria de propor uma mudança de olhar. Aprendemos a tratar o sucesso empresarial como uma linha de chegada. O ponto em que, enfim, se pode descansar. Eu passei a vê-lo como uma linha de partida: não o fim de uma jornada, mas o início de outra. Porque tudo o que construímos (não apenas o patrimônio, mas sobretudo a competência de organizar, sustentar e fazer as coisas acontecerem) é precisamente o que falta a quem cuida de quem a sociedade esqueceu. Quem prosperou não chegou ao alto da montanha; chegou ao lugar de onde pode, enfim, começar a obra mais importante. Por isso, a pergunta que ofereço aos meus pares não é “quanto você está disposto a doar?”, mas “o que você é capaz de construir para apoiar quem precisa?”. O que move a Arcanjos é a convicção de que o terceiro setor não é destinatário de caridade. Eles são, na verdade, operadores de infraestrutura social: instituições que já cuidam de quem o Estado sozinho não consegue atender. Sustentar essa infraestrutura não é gesto de bondade ocasional, mas sim uma responsabilidade que cabe também a quem prosperou neste país. E não se trata de escolher entre o lucro e o propósito, como se um diminuísse o outro: trata-se de entender que a mesma disciplina que ergue uma empresa pode também erguer dignidade, e que talvez essa seja a obra mais importante que um empresário possa investir. Um legado, no fim, não se mede pelo que acumulamos, mas pelo que deixamos funcionando quando já não estamos mais aqui para cuidar.

 

8. Com base na vasta experiência acumulada e na visão de futuro da ARCANJOS, como a instituição enxerga a evolução da sociedade brasileira em direção a um cenário ideal, no qual organizações sociais e filantrópicas possam alcançar por si só, níveis maiores de autonomia e sustentabilidade, reduzindo gradativamente a dependência de doações?

Gosto de imaginar esse futuro pela cena mais concreta possível. Imagino uma Instituição de acolhimento que, no início do ano, já sabe com quanto vai poder contar ao longo dos próximos 12 meses. Não por sorte, mas porque eles têm um patrimônio que rende, uma receita que ela mesma gera e uma gestão que lhe dá previsibilidade. Uma Instituição que não perde seus melhores profissionais por não conseguir mantê-los, que não interrompe um programa no meio porque a doação atrasou, que seu fundador possa um dia faltar sem que tudo desmorone. Esse é, para mim, o retrato da autonomia: não a ausência de ajuda, mas o fim da dependência. A doação não desaparece nesse cenário, apenas muda de função. Deixa de ser a corda que impede a queda e passa a ser o impulso que permite ir mais longe. Para o Brasil chegar lá, duas mudanças precisam amadurecer ao mesmo tempo: o terceiro setor precisa se permitir profissionalizar, entendendo que método e alma não se excluem, que cuidar bem também é gerir bem. E o empresariado precisa assumir, enfim, que sustentar quem cuida de quem o país esqueceu é parte de sua responsabilidade, não um gesto de generosidade avulsa. Essa será uma travessia de gerações, e deve acontecer de forma gradual. Mas cada uma dessas instituições que se torna autônoma passa a ser uma prova de que o caminho existe e é possível de ser trilhado.

 

Conheça mais sobre a Arcanjos em: www.arcanjosendowment.org