Quando o entretenimento promove riscos: Transmissões esportivas

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Quando o entretenimento promove riscos: o impacto das propagandas de apostas, álcool, cigarros e ultraprocessados nas transmissões esportivas.

O esporte historicamente está associado a valores como disciplina, superação, saúde e bem-estar. No entanto, nos últimos anos, as transmissões esportivas passam a carregar uma contradição cada vez mais evidente: enquanto celebram performance física e qualidade de vida, também se tornam vitrines para a promoção massiva de produtos e comportamentos potencialmente nocivos à saúde, como bebidas alcoólicas, apostas esportivas, cigarros (ou dispositivos eletrônicos para fumar) e alimentos ultraprocessados.

Essa realidade se torna ainda mais evidente em eventos de grande alcance global, como os organizados pela FIFA (FIFA, 2026), que neste momento realizam a Copa do Mundo de 2026 em diferentes países da América do Norte (Estados Unidos, México e Canadá). Com uma das maiores audiências do planeta, o torneio mobiliza bilhões de espectadores ao redor do mundo, ampliando significativamente o alcance das mensagens publicitárias veiculadas durante as transmissões esportivas.

Nesse contexto, a exposição constante dessas marcas em um ambiente de alta visibilidade gera debates em diferentes países, especialmente após posicionamentos públicos de atletas que passam a recusar campanhas publicitárias desse tipo. Muitos relatam experiências pessoais marcadas por perdas familiares, dependência química, endividamento causado por jogos de azar ou doenças relacionadas ao tabagismo, reconhecendo o impacto dessas indústrias na vida de milhares de pessoas.

 

A força da publicidade no comportamento humano

A publicidade não atua apenas informando sobre um produto — ela influencia percepções, desejos e decisões de consumo.

Diversos estudos em psicologia comportamental mostram que a exposição repetida a estímulos publicitários aumenta a familiaridade e reduz a percepção de risco, fenômeno conhecido como efeito da mera exposição. Em termos práticos, quanto mais uma pessoa vê uma marca associada a emoções positivas — como vitória, emoção, pertencimento e diversão — maior a chance de desenvolver atitudes favoráveis em relação àquele produto.

Nas transmissões esportivas, essa associação é ainda mais poderosa. O cérebro passa a vincular a excitação do jogo, a adrenalina da torcida e o prazer da vitória ao produto anunciado.

Esse mecanismo é particularmente preocupante entre adolescentes, cujo cérebro ainda está em desenvolvimento, especialmente nas áreas relacionadas ao controle de impulsos, tomada de decisão e avaliação de riscos.

Entre os possíveis impactos dessa influência, destacam-se:

  • Maior normalização do consumo de álcool e apostas como parte do entretenimento;
  • Aumento da experimentação precoce de substâncias ou comportamentos de risco;
  • Dificuldade em reconhecer os impactos negativos associados ao consumo excessivo;
  • Maior vulnerabilidade a comportamentos compulsivos, como o jogo patológico;
  • Associação entre prazer, recompensa emocional e produtos ultraprocessados;

 

A normalização das apostas esportivas

Entre os setores que mais cresceram recentemente está o mercado das apostas esportivas, conhecido popularmente como “bets”.

As plataformas de apostas investem fortemente em patrocínios de clubes, estádios, uniformes, influenciadores e transmissões ao vivo. Esse volume de exposição contribui para a percepção de que apostar faz parte natural da experiência esportiva.

Estudos recentes indicam que uma parcela significativa da população já teve algum contato com apostas esportivas, chegando a mais de 30% dos adultos em alguns levantamentos nacionais, o que reforça a rápida expansão e normalização desse mercado.

O problema surge quando o entretenimento se transforma em comportamento compulsivo.

Pesquisas em neurociência indicam que o jogo ativa circuitos cerebrais ligados à recompensa, principalmente por meio da liberação de dopamina, neurotransmissor relacionado à motivação e ao prazer. Essa ativação pode favorecer padrões de repetição e, em alguns casos, evoluir para transtorno do jogo.

A Organização Mundial da Saúde reconhece comportamentos aditivos sem substância como um importante problema de saúde pública, especialmente quando associados a impulsividade, ansiedade e sofrimento financeiro.

 

Álcool: tradição cultural e risco invisível

A relação entre esporte e bebidas alcoólicas é antiga. Em muitos contextos culturais, assistir a jogos consumindo álcool tornou-se um ritual socialmente aceito.

Nesse cenário, também são frequentes campanhas publicitárias que associam bebidas alcoólicas a figuras públicas e artistas, que aparecem consumindo ou promovendo determinadas marcas, reforçando a ideia de que o produto está ligado a celebração, status e pertencimento social.

Porém, a ampla presença de marcas de whisky, cerveja e outras bebidas em eventos esportivos pode contribuir para reduzir a percepção dos danos associados ao consumo abusivo.

O uso excessivo de álcool está relacionado ao aumento do risco de acidentes, violência, dependência, doenças hepáticas, cardiovasculares e diversos tipos de câncer.

Quando a publicidade associa álcool a celebração, sucesso e pertencimento social, parte dos riscos reais tende a ser emocionalmente minimizada.

 

Tabaco e novos dispositivos eletrônicos

Embora a publicidade tradicional de cigarros tenha sofrido restrições em diversos países, novas estratégias de marketing continuam surgindo, especialmente com cigarros eletrônicos e dispositivos vaporizadores.

A indústria frequentemente reposiciona esses produtos com linguagem associada à modernidade, tecnologia e estilo de vida.

Esse tipo de comunicação pode reduzir a percepção de risco, principalmente entre os jovens.

Estudos já relacionam o uso de cigarros eletrônicos a dependência de nicotina, alterações respiratórias e possíveis danos cardiovasculares.

 

Fast food e ultraprocessados: consumo emocional

Outro setor fortemente presente nas transmissões esportivas é o de alimentos ultraprocessados e fast food.

Essas campanhas geralmente associam alimentos ricos em açúcar, gordura e sódio a momentos de lazer, confraternização e recompensa emocional.

Essa conexão entre emoção e alimentação pode fortalecer padrões de consumo automático, em que o alimento deixa de cumprir apenas função nutricional e passa a atuar como regulador emocional.

O consumo frequente de ultraprocessados está associado ao aumento do risco de obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares.

 

O papel da prevenção em um cenário de alta exposição publicitária

Prevenção não significa apenas proibir substâncias ou restringir comportamentos. Significa também desenvolver senso crítico diante das influências externas que moldam nossas escolhas.

Educar crianças, adolescentes e famílias sobre como a publicidade impacta decisões é uma estratégia essencial de proteção.

No campo da prevenção, a informação tem papel central: quanto maior a consciência sobre mecanismos de influência, menor a vulnerabilidade diante de mensagens persuasivas.

O desafio contemporâneo não está apenas no acesso aos produtos de risco, mas na forma como esses produtos são constantemente apresentados como símbolos de prazer, sucesso e pertencimento.

 

Uma reflexão necessária diante da exposição a conteúdos de risco

Quando produtos potencialmente nocivos ocupam espaços de grande influência social, como as transmissões esportivas, torna-se necessário questionar os impactos dessa exposição coletiva.

O debate não é apenas sobre propaganda, mas sobre responsabilidade social.

Em um cenário em que saúde mental, dependência e comportamentos compulsivos crescem em escala global, fortalecer a prevenção é investir em escolhas mais conscientes, relações mais saudáveis e maior proteção para as próximas gerações.

No Freemind, acreditamos que prevenir também significa aprender a enxergar criticamente aquilo que consumimos — inclusive as mensagens que chegam até nós de forma aparentemente inofensiva.

O futebol, assim como outros esportes, faz parte da cultura e da identidade do povo brasileiro, sendo um momento de celebração, alegria e união. É possível viver essa emoção, torcer e comemorar, mas sempre com responsabilidade, colocando a saúde e o bem-estar em primeiro lugar. Celebrar faz parte — cuidar também.

 

 

Referências:

 

 

Acompanhe os conteúdos do Freemind e participe dessa mobilização por mais prevenção, informação qualificada e cuidado com as famílias brasileiras.