A crise da atenção
Você consegue passar um minuto inteiro concentrado em uma única tarefa, sem olhar o celular, responder uma mensagem ou mudar de tela?
A pergunta pode parecer simples, mas revela um dos grandes desafios da sociedade contemporânea. Segundo pesquisas da psicóloga e cientista da computação Gloria Mark, da Universidade da Califórnia, atualmente as pessoas permanecem, em média, apenas 47 segundos concentradas em uma mesma tela antes de alternar para outra atividade. Há cerca de vinte anos, esse tempo era de aproximadamente 2 minutos e 30 segundos, indicando uma mudança significativa na forma como distribuímos nossa atenção.
Vivemos em uma época de excesso de informações. Mensagens chegam a todo momento, vídeos curtos disputam nossa concentração, notificações interrompem tarefas importantes e a sensação de estar sempre conectado se tornou parte da rotina de milhões de pessoas.
No Brasil, esse cenário ganha proporções ainda maiores. De acordo com o relatório Digital 2025, os brasileiros passam, em média, mais de nove horas por dia conectados à internet, um dos maiores tempos de uso da rede no mundo. Diante desse contexto, pesquisadores das áreas da Neurociência, Psicologia e Saúde Mental vêm alertando para os impactos que o excesso de estímulos pode causar na capacidade de concentração, na memória, na produtividade e no bem-estar emocional.
A chamada crise da atenção tornou-se um dos principais desafios da vida moderna. Compreender suas causas é fundamental para desenvolver hábitos mais saudáveis e fortalecer a saúde mental em um mundo cada vez mais acelerado.
Atenção: uma habilidade essencial para o cérebro
A atenção é um dos processos cognitivos mais importantes do cérebro. É ela que permite selecionar quais informações merecem prioridade, ignorando estímulos irrelevantes para que possamos aprender, resolver problemas, tomar decisões e realizar tarefas com qualidade.
Em outras palavras, prestar atenção é a porta de entrada para praticamente todas as demais funções cognitivas. Sem ela, torna-se mais difícil compreender conteúdos, armazenar informações na memória e executar atividades do dia a dia.
Quando essa atenção é interrompida repetidamente, o cérebro precisa reorganizar seus recursos cognitivos para retomar a atividade anterior. Esse processo, conhecido como custo de alternância, reduz a eficiência mental, aumenta o desgaste cognitivo e favorece erros.
Pesquisas conduzidas por Gloria Mark demonstram que, após uma interrupção, uma pessoa leva, em média, 23 minutos e 15 segundos para recuperar completamente o foco na tarefa original. Em uma rotina marcada por notificações constantes e múltiplas distrações, esse impacto pode comprometer significativamente o aprendizado, o desempenho profissional e até a qualidade das decisões.
Vivemos na economia da atenção
Nossa atenção tornou-se um dos recursos mais disputados do século XXI.
Redes sociais, plataformas de vídeos, aplicativos, jogos e diversos serviços digitais são desenvolvidos para manter o usuário conectado pelo maior tempo possível. Recursos como notificações, rolagem infinita, recomendações personalizadas e atualizações constantes utilizam princípios da Psicologia Comportamental para estimular o engajamento contínuo.
Esses mecanismos ativam o sistema de recompensa do cérebro, especialmente os circuitos relacionados à dopamina. Ao contrário do que muitas pessoas acreditam, a dopamina não é o “hormônio do prazer”. Ela está relacionada principalmente à motivação, à expectativa e à busca por novidades.
Cada nova curtida, comentário, vídeo ou mensagem representa uma possibilidade de recompensa, incentivando o cérebro a continuar procurando o próximo estímulo. Esse funcionamento ajuda a explicar por que tantas pessoas têm dificuldade em interromper o uso das redes sociais, mesmo quando sabem que precisam estudar, trabalhar, descansar ou dedicar atenção às pessoas ao seu redor.
Esse cenário deu origem ao conceito de economia da atenção, no qual empresas competem constantemente pelo tempo e pelo engajamento dos usuários. Nesse ambiente, manter o foco deixou de depender apenas da força de vontade e passou a exigir escolhas conscientes diante de tecnologias desenvolvidas para captar nossa atenção continuamente.
O excesso de estímulos modifica nossos hábitos de atenção
O cérebro possui uma capacidade extraordinária chamada neuroplasticidade, que permite modificar sua estrutura e seu funcionamento de acordo com as experiências vividas.
Isso significa que aquilo que fazemos repetidamente fortalece determinados circuitos neurais.
Quando passamos muitas horas consumindo conteúdos extremamente rápidos, alternando entre aplicativos e realizando várias tarefas ao mesmo tempo, treinamos o cérebro para buscar estímulos constantes.
Como consequência, atividades que exigem atenção prolongada — como ler um livro, assistir a uma aula, estudar, escrever ou participar de uma conversa sem consultar o celular — passam a parecer mais difíceis ou menos interessantes.
Isso não significa que o cérebro tenha sido permanentemente prejudicado. Significa que ele se adaptou ao ambiente em que está inserido. A boa notícia é que essa mesma capacidade de adaptação permite recuperar a concentração por meio da construção de novos hábitos.
Multitarefas: produtividade ou ilusão?
Responder mensagens durante uma reunião, acompanhar uma aula enquanto navega nas redes sociais ou alternar constantemente entre diferentes tarefas pode transmitir a sensação de produtividade.
Entretanto, pesquisas mostram que o cérebro humano não realiza várias tarefas cognitivas complexas simultaneamente. Na prática, ele alterna rapidamente entre elas.
Essa troca constante reduz a qualidade da atenção, aumenta o número de erros, dificulta a memorização de informações e gera maior fadiga mental.
Em vez de economizar tempo, a multitarefa frequentemente diminui a eficiência e torna o trabalho mais cansativo.
Atenção, saúde mental e qualidade de vida
A dificuldade de concentração raramente surge de forma isolada.
Ela costuma estar associada a diversos fatores, como privação de sono, estresse crônico, ansiedade, sobrecarga de informações, uso excessivo de dispositivos digitais, sedentarismo e baixa qualidade das relações sociais.
Quando o cérebro permanece constantemente em estado de alerta, torna-se mais difícil relaxar, organizar pensamentos e manter a atenção por longos períodos.
Além disso, a sensação de nunca conseguir concluir tarefas pode gerar frustração, queda da autoestima e aumento do sofrimento emocional.
Por isso, cuidar da atenção também significa cuidar da saúde mental.
Crianças e adolescentes: um cuidado ainda maior
A infância e a adolescência representam períodos de intensa transformação cerebral. Regiões responsáveis pelo autocontrole, planejamento, tomada de decisões e atenção ainda estão em desenvolvimento, tornando crianças e adolescentes mais sensíveis aos estímulos do ambiente.
Nesse contexto, o uso excessivo de telas pode ocupar o espaço de experiências fundamentais para o desenvolvimento saudável, como brincar, praticar atividades físicas, conviver com a família, explorar o ambiente, ler, criar e resolver problemas.
Isso não significa demonizar a tecnologia. Ela faz parte da vida contemporânea e oferece inúmeras possibilidades de aprendizado e conexão. O desafio está no equilíbrio.
Famílias, escolas e profissionais desempenham papel essencial na construção de uma relação saudável com o mundo digital, incentivando momentos de desconexão, convivência presencial e atividades que fortaleçam a atenção, a criatividade e as habilidades socioemocionais.
É possível recuperar a capacidade de concentração?
Assim como o cérebro aprende a viver em constante distração, ele também pode reaprender a manter o foco.
Pequenas mudanças na rotina fazem diferença ao longo do tempo, como reduzir interrupções durante tarefas importantes, estabelecer horários específicos para verificar mensagens, praticar a leitura de textos mais longos, priorizar uma atividade por vez, manter uma rotina regular de sono, praticar atividade física e reservar períodos livres de telas.
Essas estratégias fortalecem novamente os circuitos cerebrais relacionados à atenção e ao controle executivo, favorecendo maior produtividade, equilíbrio emocional e qualidade de vida.
Cuidar da atenção também é uma forma de prevenção
A crise da atenção não é resultado de falta de disciplina ou de força de vontade. Ela reflete transformações profundas na forma como vivemos, trabalhamos, estudamos e consumimos informação.
Em um ambiente projetado para disputar nossa atenção a cada segundo, preservar a capacidade de concentração tornou-se uma habilidade que precisa ser desenvolvida e protegida.
No Freemind, acreditamos que a prevenção vai muito além de evitar o uso de substâncias psicoativas ou outros comportamentos de risco. Ela também envolve promover saúde mental, fortalecer vínculos familiares, incentivar hábitos saudáveis e desenvolver competências socioemocionais que favoreçam escolhas conscientes ao longo da vida.
Cuidar da atenção é cuidar da aprendizagem, da qualidade das relações, da autonomia e do bem-estar. Em um mundo marcado pelo excesso de estímulos, aprender a desacelerar, estabelecer limites para o uso das tecnologias e valorizar momentos de presença pode ser uma das estratégias mais importantes para proteger a saúde mental e construir uma vida mais equilibrada.
REFERÊNCIAS:
- Mark, G. (2023). Attention Span: A Groundbreaking Way to Restore Balance, Happiness and Productivity.
- DataReportal. Digital 2025: Brazil.
- American Psychological Association (APA). Stress in America.
- American Academy of Pediatrics (AAP). Media Use Guidelines for Children and Adolescents.
- Nicholas Carr. The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains.
- Daniel J. Levitin. The Organized Mind.
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