O impacto socioeconômico das bets no Brasil

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As apostas esportivas online deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento para se tornarem um tema de grande relevância social, econômica e de saúde pública. O crescimento acelerado das plataformas de apostas, aliado à ampla divulgação e ao fácil acesso, tem provocado impactos que vão muito além das perdas financeiras individuais, afetando famílias, a economia, o sistema de saúde e a sociedade como um todo.

O Freemind acredita que a prevenção começa pela informação de qualidade e pelo debate baseado em evidências científicas. Compreender os riscos associados às bets, seus efeitos sobre a saúde mental, o endividamento das famílias e os desafios relacionados à regulação é essencial para a construção de políticas públicas mais eficazes e para a proteção das populações mais vulneráveis.

Neste artigo, apresentamos o conteúdo institucional da newsletter Segunda Leitura, sobre impacto social, produzido pelo Marcos Oliveira, sócio fundador do Hub Cerrado, presidente da Arcanjos e ICT Cívia.

Marcos, apresenta uma análise sobre os impactos socioeconômicos das apostas online e propõe uma reflexão importante: mais do que responsabilizar exclusivamente quem aposta, é necessário discutir o papel da regulação, da prevenção e da responsabilidade coletiva na construção de um ambiente mais seguro para toda a sociedade.

 


Este é um conteúdo autoral. As informações e opiniões expressas são de responsabilidade exclusiva do autor.

 

 

O impacto socioeconômico das bets no Brasil

Por que o problema não é o apostador, mas sim a arquitetura regulatória que o desprotege

Quero começar por um número que, sozinho, já nos traz um desconforto. Em 2025, os brasileiros movimentaram cerca de R$ 350 bilhões em apostas online, de acordo com o Procon-SP. Vale deixar claro o que esse número representa: em boa parte, ele é dinheiro que saiu da mesa do trabalhador, do caixa do pequeno comércio, da prateleira do supermercado. A Confederação Nacional do Comércio estima que o desvio de consumo das famílias para as bets subtraiu da cadeia produtiva nacional algo entre R$ 39 bilhões e R$ 364 bilhões, a depender do cenário. Seja qual for o ponto dentro dessa faixa, a direção é a mesma: uma fatia relevante da renda das famílias deixou de circular na economia real e foi parar nas plataformas de apostas.

Quero fazer aqui uma provocação. E se o problema não estiver em quem aposta, mas na estrutura que permite, estimula e lucra com a aposta? Faço a pergunta porque o impacto socioeconômico das bets não cabe no comportamento individual do apostador. Nesta edição, vamos entender como esse dinheiro drena a economia real, empurra as famílias mais vulneráveis para o endividamento e sobrecarrega a saúde pública. Ao final, quero chegar à raiz de tudo isso que, ao meu ver, é regulatória: o nó que quase ninguém está disposto a desatar.

 

Para onde vai o dinheiro: a drenagem da economia real

Quando a renda da família migra para apostas em bets, ela não acontece de forma inócua. Tal migração sempre gera consequências. O primeiro a senti-la é o comércio. No Rio Grande do Norte, a Confederação Nacional do Comércio estima que o varejo local deixou de faturar cerca de R$ 3,2 bilhões, montante suficiente para inviabilizar um crescimento de até 15% no setor. No Mato Grosso do Sul, a perda oscilou entre R$ 520 milhões e R$ 4,4 bilhões. Por trás desses números estão mercados, farmácias e pequenos lojistas que assistem à retração do movimento sem identificar, de imediato, a sua origem. Há ainda estimativas de que, no avanço do endividamento das famílias, o peso das apostas supere em mais de três vezes o efeito isolado das altas taxas de juros. Na disputa pelo orçamento do brasileiro, a aposta tem prevalecido até sobre o custo do crédito.

Reduzir esse fenômeno a “menos consumo”, porém, seria ignorar a sua face mais perversa. O efeito cascata não se esgota na compra que deixa de ser feita. Ele começa quando um integrante da família redireciona para a aposta os recursos reservados ao aluguel, à energia, ao alimento. A casa perde a luz, perde o gás, perde o alimento da geladeira. E, a partir daí, o varejo deixa de ser o centro do problema. O que se instala são os conflitos e a violência doméstica, situações que, no limite, terminam em desfechos trágicos. O dano nasce na economia, penetra no núcleo familiar e alcança a segurança de todos que ali vivem.

 

O endividamento das famílias mais vulneráveis

Quando o Banco Central revelou que beneficiários do Bolsa Família destinaram cerca de R$ 3 bilhões às plataformas de aposta online em um único mês, o reflexo foi duplo: culpar quem recebe o auxílio governamental e buscar meios de restringir o uso desse recurso para este fim. Considero o julgamento cômodo e injusto. Quem não tem, ao fim do mês, o dinheiro para honrar a conta que vence, enxerga na aposta uma promessa tentadora: arriscar pouco para obter o que falta. O que se rotula como imprudência é, no fundo, a aritmética do desespero, e a tentação se adensa justamente onde há menos margem para perda.

Mas aqui vale uma reflexão: será que o caminho é criar mecanismos paternalistas para dizer ao cidadão onde pode ou não gastar o próprio dinheiro? Nas entrelinhas dessa discussão há algo mais profundo. Ao debater como impedir que o mais pobre aposte o seu benefício, reconhecemos que ele está exposto a uma máquina construída para capturá-lo e, ainda assim, escolhemos agir sobre a pessoa, não sobre a máquina. Inverte-se a responsabilidade: vigia-se o vulnerável em vez de confrontar a estrutura que o expôs. Esse é o ponto.

 

Ludopatia como problema de saúde pública

Depois da economia e do orçamento familiar, o dano encontra um terceiro endereço: o sistema público de saúde. A ludopatia, ou transtorno do jogo, é uma doença formalmente catalogada pela Classificação Internacional de Doenças e equiparada, pelos médicos, à dependência de álcool e tabaco. Tratá-la como falha de caráter é o primeiro equívoco. Hoje ela figura como a terceira dependência de maior incidência no país e, entre 2018 e 2025, os atendimentos a ela associados no SUS cresceram 140%, pressionando equipes que já trabalhavam no limite. O sofrimento tampouco se restringe a quem aposta: estima-se que cada jogador compulsivo afete, de maneira direta, ao menos seis pessoas em seu círculo de convivência. O vício caminha ao lado da depressão e da ansiedade e, nos desfechos mais extremos, do suicídio.

Há um traço que distingue essa dependência das demais: ela é fabricada com método. Bônus recorrentes, notificações incessantes e uma comunicação agressiva, sustentada por influenciadores, foram concebidos para capturar a atenção de quem está mais fragilizado. Mesmo antes de o governo restringir a publicidade, o setor já recorria a influenciadores adolescentes para alcançar o público jovem. O resultado aparece nos dados do Instituto Alana: em 2025, 11% das crianças e adolescentes de 10 a 17 anos afirmaram já ter apostado online. É um dado que, no mínimo, deveria nos envergonhar. Mais recentemente, Senacon e Conar chegaram a investigar o formato de veiculação das odds pela CazéTV (que tem sido acompanhado por milhões de espectadores durante os jogos da Copa do Mundo), sob suspeita de publicidade abusiva e indutora ao jogo.

 

A lição da indústria do tabaco: quem lucra com o dano deveria custeá-lo

Chegamos, então, à pergunta incômoda: se o dano é fabricado e o custo é público, quem deveria arcar com ele? O Brasil já enfrentou essa questão antes, diante de um produto legal, lucrativo e comprovadamente nocivo: o cigarro. E a resposta que construímos ao longo de décadas é bastante instrutiva. Primeiro, restringiu-se a exposição, com a Lei 12.546/2011, que baniu o consumo em ambientes de uso coletivo. Depois, passou-se a discutir a vinculação da arrecadação à reparação, por meio de contribuições como a CIDE-Tabaco, que destinaria parte dos tributos sobre a fabricação e a importação diretamente a políticas de prevenção e ao SUS. Por fim, avançou-se sobre a responsabilização: a AGU move ação para cobrar das fabricantes os custos bilionários que o sistema público assume no tratamento de doenças ligadas ao tabagismo.

O princípio que sustenta essa operação pode ser enunciado sem rodeios: quem lucra com uma atividade que gera dano coletivo deve participar do custo de repará-lo. Não vejo razão para que as bets fiquem de fora desta equação. Seria plenamente possível exigir do segmento medidas condicionantes, capazes de compensar os prejuízos que ele reconhecidamente provoca, da sobrecarga do SUS ao endividamento das famílias. Aqui entra o que considero central: o dever do Estado de proteger o cidadão e de mitigar riscos não é uma escolha de governo, e sim uma responsabilidade do poder público. Trazer isso para a mesa, com as dores expostas e as contas à vista, é o que permite uma relação mais honesta, na qual o Estado deixa de apenas arrecadar com o setor e passa a lhe cobrar a conta que hoje reparte com toda a sociedade. É nessa linha que precisamos caminhar.

 

O verdadeiro nó é regulatório: a competência concorrente

A esta altura, alguém dirá que já existe regulação. E existe. As Leis 13.756/2018 e 14.790/2023 formalizaram a atividade. O Ministério da Fazenda impôs regras de conformidade, do domínio “.bet.br” ao reconhecimento facial. Tramita no Congresso o Projeto de Lei 3670/24, que prevê multas de até R$ 2 bilhões e veda o uso de cartão de crédito e do Bolsa Família nas apostas. O Supremo, pela relatoria do ministro Luiz Fux, já referendou medidas restritivas e convocou audiência de conciliação. Não faltam normas, decisões e boas intenções. O que falta é arquitetura. E é aqui que reside o nó que comentei no início deste texto.

A raiz do problema, ao meu ver, está no compartilhamento de competências. No plano federal, a União tem plenas condições de organizar o setor a partir de uma supervisão central. Ocorre que a lei também conferiu aos estados competência concorrente para regulamentar as bets, e esse é o “defeito de origem”. Cria-se um mosaico de soluções locais para um fenômeno que não conhece fronteira. Sem limite territorial que sustente a regra, cada estado legisla ao sabor do interesse arrecadatório, relativiza o interesse público maior e deixa o campo aberto aos danos que já conhecemos. A meu ver, a saída à altura do problema passa por levar a questão à Constituição: uma emenda que concentre a regulação das plataformas de apostas exclusivamente na esfera federal e feche as portas a esse modelo fragmentado.

 

Educação e cidadania financeira

Falta ainda o outro lado da balança: a prevenção. E aqui a educação financeira merece mais peso do que costuma receber. Vale uma conta rápida para ilustrar. Os mesmos R$ 20 que alguém arrisca numa aposta, com chance real de virar zero, renderiam, se depositados todo mês numa aplicação de renda fixa, uma reserva concreta ao fim do ano. A diferença entre uma trajetória e outra tem menos a ver com sorte do que com informação. Compreender o que significa apostar, e por que a aposta é tão perniciosa, é uma forma de desenvolver a cidadania financeira. E garanti-la é obrigação do Estado.

A sociedade não esperou assistir o desfecho dessa epidemia de braços cruzados. Movimentos como o “Block no Tigrinho”, encabeçado pela 342 Artes, reuniram milhares de artistas e cidadãos no intuito de educar a população e mostrar que a aposta, longe da promessa de lucro fácil, entrega dívida e sofrimento. Tratar as bets como tema de impacto social é reconhecer que o problema gera feridas profundas na economia, na saúde pública e nos lares de milhões de brasileiros. Enquanto insistirmos em tratar o sintoma e poupar a origem, seguiremos enxugando gelo.

 

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