Resultados inéditos apresentados no seminário do LENAD III mostram avanços, retrocessos e novos desafios no enfrentamento da dependência de nicotina no Brasil. O cenário atual exige ações urgentes. E agora?
Em um seminário no YouTube no dia 12 de junho de 2025, dados atualizados sobre o uso de tabaco e dispositivos eletrônicos de fumar (DEFs) no Brasil resultantes do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) foram apresentados pela Dra. Clarice Madruga (Uniad/Unifesp) e traçam um retrato preocupante da prevalência e dos padrões de uso de nicotina no país, indicando que o sucesso da redução do tabagismo tradicional está ameaçado pelo avanço dos cigarros eletrônicos.
Tabagismo: avanços importantes, mas persistem desafios
- 20,8 milhões de brasileiros são fumantes passivos (16,5% convivem com fumantes em casa).
- Apesar da queda de 40% no consumo de tabaco desde o primeiro LENAD, o Brasil ainda tem 11,7% de fumantes atuais — e 90% desses fumam diariamente.
- 26,1% dos fumantes começaram a fumar antes dos 14 anos.
- O índice de fumantes entre adolescentes caiu de 6,2% para 1,7%, mas entre adultos permanece alto (12,5%), com prevalência maior entre homens.
- 1/3 dos fumantes consome 20 cigarros ou mais por dia — uso pesado, com maior risco de doenças.
- Entre adolescentes que fumam, o uso pesado é significativo, destacando a vulnerabilidade neurológica dessa faixa etária.
Escala de dependência
A Escala de Fagerström mostrou que, mesmo com uso frequente, muitos usuários se percebem em estágios de dependência baixa — um alerta para a complexidade dos fatores envolvidos.
- Um dado preocupante: mais de 50% das meninas adolescentes que fumam fazem uso pesado de cigarro convencional.
Tentativas de cessação e pandemia
- A pandemia da COVID-19 funcionou como um motivador para a redução ou cessação do tabagismo.
- Mais de 50% dos que conseguiram parar o fizeram logo na primeira tentativa — reforçando a importância de usar todos os recursos disponíveis logo no início.
- Para os que não conseguiram, a mensagem é clara: não desistir e buscar apoio contínuo.
Rede de tratamento
- UBS e Postos de Saúde são os serviços mais buscados, bem mais que os CAPS-AD.
- Cerca de 40% dos que tentaram parar de fumar não receberam supervisão médica — lacuna importante nas políticas públicas.
DEFs: um novo e perigoso desafio
O uso de cigarros eletrônicos avança silenciosamente no Brasil, especialmente entre os jovens:
- 17,6% da população nunca ouviu falar em DEFs — um alerta para estratégias de prevenção: é preciso evitar “promover” essas substâncias ao tentar preveni-las.
- Entre os que conhecem DEFs:
- 10,7% já experimentaram.
- 63,6% converteram a experimentação em uso atual — altíssimo potencial de dependência.
- Prevalência geral: 5,6% de uso atual de DEFs.
- Entre adolescentes: 8,7% — com prevalência ainda maior entre meninas (quase 10%).
Mudança preocupante
- O sucesso da redução do tabagismo entre adolescentes está sendo revertido pelo avanço do uso de DEFs.
- Entre adolescentes que experimentaram, 76,3% converteram para uso regular — proporção ainda maior que entre adultos.
- 86% dos usuários de DEFs acreditam que estão consumindo produtos sem nicotina, o que não corresponde à realidade: a maioria dos líquidos contém nicotina, THC ou outras substâncias psicoativas.
Intenção de uso e percepção de risco
- 91% dos adultos e 80% dos adolescentes que não usam DEFs dizem que não pretendem usar — o que reforça a importância de estratégias de prevenção para evitar a experimentação inicial.
- A percepção de risco é alta: a maioria reconhece que tanto o cigarro convencional quanto o DEF fazem mal à saúde.
O problema do acesso
- 78,4% dos adolescentes que fumam cigarros convencionais afirmam que a idade nunca foi um obstáculo para conseguir comprar — um aumento preocupante desde 2012 (quando era 62%).
- No caso dos DEFs, o cenário é ainda mais grave:
- Produto ilegal, mas com acesso muito fácil, especialmente via canais digitais (Instagram, WhatsApp).
- Fiscalização ainda frágil, com necessidade urgente de reforço e controle.
Uso composto de nicotina no Brasil
- 15,5% da população brasileira usa nicotina por alguma via: cigarro convencional, DEF ou ambos.
- 9,9% usam exclusivamente cigarro convencional.
- 3,7% usam exclusivamente DEF.
- 1,9% praticam uso dual (cigarro convencional + DEF) — combinação altamente perigosa devido à soma de toxinas e ao aumento da dependência.
- O uso entre adolescentes do sexo feminino já supera o dos meninos — tendência que exige atenção redobrada.
O que o Brasil precisa fazer — e agora?
Os dados do LENAD III revelam um novo cenário de ameaça:
- O tabagismo tradicional segue em queda, mas a popularização dos DEFs ameaça reverter esse avanço.
- Menores de idade estão consumindo DEFs com muita facilidade, mesmo com a proibição.
- O uso dual já atinge quase 2% da população — situação de risco extremo.
- Fiscalização do comércio digital precisa ser urgentemente reforçada.
- Políticas públicas precisam incluir estratégias específicas para DEFs, com base em evidências e não apenas na restrição legal.
A mensagem é clara: a luta contra a dependência de nicotina não terminou — ela apenas mudou de forma. A resposta do Brasil deve ser rápida, coordenada e baseada na ciência.
E agora? É hora de proteger nossos jovens, reforçar as conquistas das últimas décadas e garantir um futuro com menos dependência e mais saúde.
O que é o LENAD?
O Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool e outras Drogas pela População Brasileira (LENAD) é o maior e mais abrangente estudo epidemiológico sobre consumo de substâncias psicoativas no Brasil. Ele é conduzido pelo INPAD (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas de Álcool e Outras Drogas), vinculado à Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), sob coordenação da Dra. Clarice Madruga.
Desde sua primeira edição, o LENAD fornece dados fundamentais para entender o padrão de uso de substâncias na população brasileira, subsidiando políticas públicas de prevenção, tratamento e reinserção social.
Equipe de Excelência: Os Especialistas por Trás do LENAD III
O LENAD III contou com a atuação de uma equipe multidisciplinar de excelência, composta por alguns dos principais pesquisadores e especialistas em saúde mental e políticas públicas sobre drogas no Brasil. Entre eles, destacam-se parceiros, amigos e palestrantes do Congresso Internacional Freemind, como o Dr. Ronaldo Laranjeira, referência nacional no tema; a Dra. Clarice Madruga, responsável pela apresentação dos resultados e uma das principais coordenadoras da pesquisa; o Dr. Claudio Jeronimo da Silva, a Dra. Sandra Silva Marques, o Dr. Quirino Cordeiro Junior e o Dr. Daniel Tornaim Spritzer, todos com importante contribuição científica e institucional. Também participaram ativamente o Dr. Frederico Garcia, a Dra. Maria de Fátima Padin e a pesquisadora Katia Isicawa de Sousa Barreto, cujas trajetórias reforçam o compromisso com a produção de evidências para subsidiar políticas públicas eficazes. O psicólogo Rogério Bosso, colaborador constante do Freemind, e o renomado pesquisador internacional Dr. Willian Crano completam este time comprometido com a transformação da realidade brasileira por meio da ciência. A presença desses nomes reforça a credibilidade do estudo e o papel estratégico da articulação entre pesquisa, política pública e sociedade civil.
Acesse aqui o Caderno Temático do LENAD III sobre Tabagismo e Uso de Dispositivos Eletrônicos Para Fumar (DEFs) – Caderno Temático LENAD III – Tabaco e DEFs.
Acesse aqui 0 Caderno de Recomendações consolidadas pelo Comitê Científico do LENAD com apoio de especialistas com ampla experiência em saúde coletiva, prevenção ao uso de drogas, vigilância epidemiológica, regulação sanitária, controle do tabagismo e políticas multissetoriais, que visam orientar gestores públicos, legisladores e profissionais de saúde na formulação de respostas eficazes, integradas e baseadas em evidências, com ênfase na proteção de crianças, adolescentes e populações mais vulneráveis aos danos do consumo de nicotina. – Recomendações Caderno LENAD_Tabaco
Acesse aqui e assista na íntegra ao Seminário de Resultados do LENAD III: Uso de Tabaco e Dispositivos Eletrônicos de Fumar na população Brasileira
