Apesar dos modelos de acolhimento disponíveis serem acessíveis a homens e mulheres, em geral, no caso delas, existe um desafio maior: a responsabilidade do cuidado com os filhos. O painel “Tratamentos para mulheres”, do 10º Congresso Internacional Freemind, trouxe importantes contribuições ao debate sobre a dependência feminina, com a participação de especialistas em políticas públicas e casos clínicos.
“O problema é subestimado. O álcool é uma porta de entrada, e as meninas começam cada vez mais cedo a usar. Em 2030, a expectativa é que as mulheres consumirão no mesmo padrão dos homens, entre adolescentes, as meninas estão começando antes dos meninos e bebendo mais. Uma inversão preocupante!” diz o Dr. Divane de Vargas, Líder do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Enfermagem em Adições e Saúde Mental (NEPEASM)-CNPq, e presidente da Comissão de Pesquisa e Inovação da EEUSP (2023/2025). “Apenas uma em cada 18 mulheres com Transtorno de Uso de Substâncias consegue acessar tratamento adequado, segundo pesquisa conduzida pela ISSUP. As mulheres são duplamente expostas, por causa da vulnerabilidade social. Programas responsivos ao gênero são a base do sucesso, com equipe treinada em gênero, trauma e violência”.
“E se fosse um homem? Vai ter a mulher, vai ter a mãe, a família inteira pra cuidar dos filhos. Mas a mulher, se ela consegue verbalizar que precisa de ajuda, a própria mãe dela a condena, dizendo que vai perder o marido, os filhos… é o estigma de que a mulher foi criada para ser mãe e cuidar da casa. Ela não pode ficar doente, não pode se tratar”, relata Grazi Santoro, presidente da Associação Alcoolismo Feminino. “A cada 10 mulheres brasileiras, sete são mães. Dessas sete, quatro são mães solo. Das quatro, três são negras e não têm parentes nem rede de apoio. Dessas quatro mães solo, duas estão fora da força de trabalho ou desempregadas, e na pobreza. Uma em cada 18 mulheres busca ajuda, enquanto um em cada sete procuram ajuda.”
Santoro ainda aponta que essas mulheres com Transtorno de Uso de Substâncias são marcadas pelo sofrimento e pelas violências, que podem estar relacionadas com relações abusivas, exploração sexual, abandono familiar, extrema vulnerabilidade social e, não raro, vivendo em situação de rua. “O tratamento só se sustenta quando há articulação com outros setores, como Assistência Social; Educação e Trabalho; Justiça, para garantir acolhimento em situações de violência, apoiar a guarda dos filhos, e fornecer orientação e defesa jurídica; e Cultura e Convivência”, conclui.
Diego Mantovanelli, Coordenador-Geral do Departamento de Entidades de Apoio e Acolhimento Atuantes em Álcool e Drogas do Ministério do Desenvolvimento Social, defendeu a necessidade da formação de um protocolo nacional de atendimento a mulheres, a partir de comissões e encontros dedicados ao tema, elaborar estratégias de escuta das demandas das instituições, e, em parceria com outros ministérios, a elaboração de uma orientação nacional sobre protocolos de atendimento às mulheres com Transtorno de Uso de Substâncias. “Precisamos também viabilizar o acesso à justiça para garantir direitos legais, com foco na guarda e na manutenção do poder familiar dos filhos. Também precisamos estruturar estratégias de acolhimento alinhadas às questões culturais, como as das mulheres indígenas, respeitando a especificidade étnica e o diálogo de saberes”.
O painel “Tratamento de Mulhres” foi transmitido ao vivo, e está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=F5iLSFr4FZU.
