A psicóloga e pesquisadora Dra. Clarice Madruga, referência nacional em pesquisa sobre substâncias psicoativas, é membro do comitê gestor da Unidade de Pesquisa em Álcool e outras Drogas (UNIAD) na UNIFESP, onde coordena o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD), cuja terceira edição foi publicada recentemente e trouxe importantes indicadores que influenciam diretamente as políticas públicas voltadas ao tema.
Madruga é uma das palestrantes do 10º Congresso Internacional Freemind, realizado em Brasília entre os dias 16 e 19 de novembro, e que traz especialistas em saúde pública, pesquisadores, educadores e representantes governamentais para debater o panorama de ações voltadas à prevenção, ao acolhimento e à reintegração social de um grande contingente de pessoas afetadas pela dependência em drogas, jogos eletrônicos, apostas e outros.
Abaixo, trazemos uma pequena entrevista sobre os Levantamento Nacional de Álcool e Drogas:
Conhecer dados sobre o uso de drogas é importante para o entendimento do cenário, mas de que forma o LENAD inova nesse tipo de levantamento?
“O LENAD é o maior inquérito de drogas do país no momento. É uma pesquisa domiciliar no mesmo formato do que o IBGE faz, na casa das pessoas do país inteiro. Desde 2012, na segunda edição, nós temos um inquérito que é feito em formato sigiloso, pra que a gente tenha um dado mais confiável sobre consumo de substância ilícita, e esses dados que o LENAD está trazendo são vitais porque eles são os únicos que dão as dimensões dos transtornos aditivos no país. A gente tem outros inquéritos nacionais, mas eles não nos informam sobre o transtorno aditivo.”
O III LENAD trouxe atenção sobre o vício em apostas. Houve alguma grande surpresa em relação ao que já se conhecia anteriormente?
“O que surpreendeu a todos foi o fato de que as bets, jogos de aposta online e outros tipos de apostas, já passaram do tabaco em termos de números absolutos de pessoas com transtorno. 7,3% da população, ou 12,6 milhões de pessoas. É a segunda maior proporção de pessoas com transtorno depois do álcool. Foi relevante mostrar que não só tem um monte de gente apostando, e a gente já tem aí outros estudos mostrando o impacto financeiro e o impacto em termos de economia, mas o que o LENAD mostra é o impacto de saúde pública.”
64% dos brasileiros declararam não ter consumido álcool em 2025, 9% acima dos dados de 2023, de acordo com uma pesquisa realizada pela Ipsos-Ipec. O número sugere um avanço positivo. É realmente possível ser otimista, ou precisamos nos aprofundar? Como podemos entender esse fenômeno?
“Esse dado foi divulgado recentemente e confirmado por outras pesquisas, mas nós temos observado nas outras edições do LENAD, em comparação com a última, a queda na proporção de pessoas que fazem uso de bebida alcoólica. Todavia nós temos um índice muito alto de pessoas com dependência de álcool. O álcool continua sendo a substância com maior proporção de usuários, mesmo com a redução da quantidade de usuários, mas dentro dos usuários a proporção de pessoas que bebem de forma abusiva aumentou significativamente. 11,5% dos brasileiros atendem aos critérios para transtorno de alcoolismo. Esse índice é alto também entre adolescentes, ou seja, entre os menores de idade que nem deveriam estar bebendo temos 5% de transtorno pelo uso de álcool. O Brasil continua sendo um país onde quem bebe, bebe demais. Isso é uma mensagem importante! O padrão de uso do bebedor brasileiro é péssimo. A gente tem um índice altíssimo que aumentou na última década, de pessoas que bebem de forma abusiva. Embora tenha muita gente não bebendo, quem bebe, bebe demais, e quem bebe demais bebe num padrão nocivo.”
É possível que o comportamento esteja apenas mudando, ou que as pessoas estejam migrando para outras substâncias ou comportamentos nocivos à medida que o consumo de álcool reduz?
“Embora a gente esteja avançando com uma tendência de ter uma geração que não bebe, isso é algo inédito em relação às gerações anteriores. Não se admitia que uma pessoa jovem, saudável e ativa socialmente, não consumisse álcool. A nova geração considera isso, mas talvez por razões não tão saudáveis porque, basicamente, eles estão se envolvendo com outros comportamentos aditivos, como as próprias bets.”
O número de usuários de cigarros eletrônicos (vapes) também trouxe um alerta. O que podemos dizer sobre o uso deles pelos mais jovens?
“A gente não tem dados sobre aumento do número de usuários, diretamente, porque o LENAD em 2012 não investigou o uso de vapes, mas a gente tem uma proporção bastante alta de pessoas fazendo uso deles, um alto índice de meninas inclusive, e um índice muito alto de conversão das pessoas que experimentam e passam a fazer uso regular. Isso mostra o potencial aditivo dos dispositivos eletrônicos de fumar, como o Ministério da Saúde chama.”
