Maria Paula Fidalgo é atriz, escritora, apresentadora e psicóloga, e também é Embaixadora da Paz, com atuação pública na difusão da cultura de paz. Muito lembrada por sua participação no programa “Casseta & Planeta”, Maria Paula esteve presente, de surpresa, na plateia do 10º Congresso Internacional Freemind, que debate as dependências químicas e comportamentais, os tratamentos e a reinserção social, com a participação de especialistas brasileiros e internacionais.
No intervalo entre painéis, Maria Paula nos concedeu uma entrevista sobre o papel da comunicação, da cultura de paz e da saúde, que reproduzimos abaixo.
Você é parte de um fenômeno da comunicação, de um período em que não se tinha limites, em que tudo era motivo de piada, em que se falava abertamente sobre tudo. Hoje já estamos em um período em que falamos sobre a responsabilidade da mídia sobre o que é propagado. Como você vê, hoje, esse quadro?
“Há dois aspectos básicos no meu trabalho, na minha abordagem. Um como comunicadora, que é o que o grande público conhece, e um outro como especialista em saúde mental. E o que eu tento é unir os dois, para embasar um discurso que não é um discurso muito atraente, porque a gente sabe que a gente vive numa sociedade que glamouriza muito o uso das drogas e do álcool. Inclusive, faz com que os jovens acreditem que a diversão só é possível quando você tá altinho. Então, tem toda uma linguagem, tá de pilequinho, tá altinho, diminui como se fosse uma brincadeira, uma coisa inofensiva, né? Eu uso a minha capacidade de comunicadora pra trabalhar o mindset, para tirar do centro da pauta esse discurso nocivo, deliberadamente manipulado por agendas muito sérias de uma indústria de álcool, de tabaco e por tráfico de drogas, que tomou de assalto completamente a mídia e a cultura. Isso é uma coisa muito séria, não é só normalizar o uso, é glamourizar.
O legal é você estar doidão, o legal é você encher a cara e isso é disseminado amplamente na mídia, o tempo todo, através de músicas. Eu tenho filho adolescente e eu ouço o menino ouvindo cada música, que eu falo, por que você está ouvindo isso, meu filho? Não só relacionado a álcool e drogas, fazendo apologia, mas também ao uso de armas. Olha que coisa séria que chegou, o ponto a que chegamos… tratando como se a pessoa que é sóbria fosse um careta, fosse um reacionário, é super sério isso. Um dos aspectos que eu abordo dentro e fora da tela, em cima e fora do palco, em todos os ambientes em que eu transito, é a necessidade urgente de se mudar o mindset, uma mentalidade que encara a apologia do uso de todos os tipos de substância como algo bacana, como algo legal.
Hoje houve uma democratização das vozes. Antes você precisava passar por um canal, por uma Globo, por um jornal, por uma Folha de São Paulo, para que a sua voz fosse ouvida. E hoje todo mundo tem possibilidade de emitir ideias, informações, por um lado isso é ótimo, mas é também muito perigoso, porque o que a gente vê são pessoas sem o menor embasamento teórico, falando como se fossem especialistas em assuntos seríssimos, como por exemplo depressão, saúde mental…
E o que eu trabalho também é para que as pessoas tenham um pensamento crítico, um olhar crítico. E aí a palavra-chave é curadoria. Curadoria de conteúdo. Então, o que você está vendo? O que você está permitindo que os seus filhos consumam? É muito importante ter curadoria nesse ambiente hoje, em que houve essa democratização das vozes. Por um lado é ótimo que muita gente possa ter a possibilidade de se tornar uma voz que possa ser ouvida, mas, por outro lado, é perigoso, porque gente que não está preparada também está ocupando esse lugar nos holofotes, e muitas vezes de forma irresponsável.
Nem sempre é com o intuito deliberado de ser uma ferramenta dessas agendas das indústrias do álcool e da droga. Muitas vezes, o que é mais perigoso ainda, essas pessoas têm o discurso sequestrado por essas narrativas e as pessoas nem percebem. Isso acontece muito em jovens artistas que permitem que a sua imagem seja manipulada por essas grandes indústrias, e não tenha dúvidas de que essas agendas não ocorrem de uma forma espontânea, é de forma deliberada. Tem gente por trás sabendo e querendo que esses discursos sejam amplamente disseminados. Isso é muito sério. E por isso que eu te falei que não é muito atraente, porque quando eu falo disso, as pessoas falam, como assim, Maria Paula? Mas você é tão legal! Você é do Casseta & Planeta!
Olha a delicadeza e a sutileza que eu tenho que ter no meu discurso pra que ele não seja confundido e distorcido, porque até meus filhos às vezes falam, pra deixar de ser careta. E eu começo a rir e falo que se tem uma pessoa nesse país que não é careta, sou eu, não sou careta. Mas é muito diferente. Eu não sou careta, mas eu sou completamente consciente do quanto é importante você não só não usar, eu não uso álcool, droga, tabaco, nada. Não uso nada. Então é importante você não só não usar, como você falar sobre isso. De uma forma que as pessoas entendam o que você está falando. É difícil, porque toda uma narrativa e toda uma cultura é deliberadamente construída com uma arquitetura impecável, usando, inclusive, as descobertas da neurociência contra a preservação do cérebro, a preservação dos circuitos neurais, do sistema nervoso central. É delicado esse assunto, mas eu sou uma voz que traz a psicologia e a saúde mental em primeiro lugar.”
Você também tem um trabalho com a questão da espiritualidade, da cultura de paz… Pode falar mais a respeito?
“À medida que eu comecei a usar a credibilidade da minha imagem e a celebridade da minha persona pública a serviço de pautas e temas importantes, eu passei a frequentar outros tipos de palco, como por exemplo estar aqui hoje, ou fazer palestras em palcos muito interessantes. E isso acabou me trazendo essa coisa linda, que eu recebi o título de embaixadora da paz. Eu uso o meu arcabouço teórico, a minha bagagem cultural, artística, e esses 40 anos de atividade como pessoa pública, para construir uma sociedade focada em ambientes pacíficos, que são ambientes seguros, que são ambientes onde as pessoas podem expressar vulnerabilidades.
E agora tenho trabalhado muito também com a preparação de empresas com a NR1, que é uma lei que a partir do ano que vem, a partir de abril do ano que vem, a empresa que não cuidar da saúde mental do seu colaborador vai receber multa por isso. Então a gente está num momento muito promissor, porque está na hora da gente criar um movimento amplo com atenção à saúde mental para além apenas das lacrações, de você ficar usando esse discurso apenas para ganhar likes, mas para realmente trazer uma discussão mais profunda, uma discussão teórica e prática, mais interessante e inteligente. E isso é bonito porque eu uso a cultura de paz e essa essa linguagem, inclusive, para abordar temas difíceis, espinhosos.
Por exemplo, acabei de ver uma palestra e o doutor João Paulo Lotufo falou uma coisa muito bonita, que foi muito importante para mim, para eu trazer para o meu discurso nas minhas próximas palestras, entrevistas, eventos, enfim, que é o seguinte, eu sempre falo que a gente precisa tomar cuidado com as nossas palavras, com a nossa comunicação. Porque, por exemplo, quando a abordagem é a cultura de paz, a gente está inserido numa sociedade cujos temas mais legais são temas bélicos. Quando a pessoa mandou muito bem, a pessoa arrasou, detonou, sabe assim, quebrou tudo. A gente precisa traduzir para uma cultura de paz a nossa linguagem. E hoje ele falou chamou a atenção uma coisa muito importante que é quando você fala do uso medicinal do cannabis você não chamar isso de maconha medicinal, porque maconha é uma coisa e a substância cannabidiol com uso terapêutico é outra, e você pode confundir muito a cabeça do jovem quando você fala isso de uma forma irresponsável e você usa o termo maconha medicinal. Não existe maconha medicinal. E os perigos, inclusive de abrir surto psicótico, inclusive de trazer quadros de distúrbios psíquicos como a esquizofrenia pelo uso da maconha em jovens é enorme. A gente que está trabalhando dentro da psicologia sabe disso.
É importante para mim estar em ambientes como esse, e eu estou o tempo todo, às vezes em cima do palco, às vezes na plateia, o tempo todo ampliando o meu vocabulário, meus temas, inclusive trazendo argumentos para as horas que eu puder estar na frente da câmera ou com o microfone na mão, eu poder falar sobre as coisas mais importantes. É um prazer e uma honra estar aqui hoje!”
“QUANDO EU FALO DISSO, AS PESSOAS FALAM ‘COMO ASSIM? MAS VOCÊ É TÃO LEGAL!’”
