Sem fumaça, sem cheiro e com aparência discreta, os sachês de nicotina vêm sendo apresentados como uma alternativa “moderna” aos produtos tradicionais de tabaco. Mas especialistas em saúde pública alertam: ausência de fumaça não significa ausência de risco.
Nos últimos anos, um novo produto passou a ganhar espaço no mercado internacional de nicotina: os sachês de nicotina, também chamados de bolsas orais de nicotina ou nicotine pouches. Pequenos, aromatizados, fáceis de esconder e vendidos com uma linguagem associada à praticidade, liberdade e estilo de vida, eles se tornaram uma nova preocupação para pesquisadores, autoridades sanitárias, famílias e educadores.
A promessa comercial costuma girar em torno de uma ideia sedutora: oferecer nicotina sem combustão, sem fumaça e, muitas vezes, sem folha de tabaco. No entanto, o ponto central permanece o mesmo: trata-se de um produto que entrega nicotina, uma substância psicoativa, altamente viciante e especialmente preocupante quando utilizada por adolescentes, jovens adultos, gestantes e pessoas que não faziam uso prévio de produtos de tabaco ou nicotina. Segundo o CDC, não há produto de tabaco seguro, incluindo os sachês de nicotina, e jovens, jovens adultos e gestantes não devem utilizá-los.
O que são os sachês de nicotina?
Os sachês de nicotina são pequenas bolsas que contêm pó de nicotina, aromatizantes, adoçantes e outros aditivos. Diferentemente do cigarro, não produzem fumaça. Diferentemente do snus tradicional*, geralmente não contêm folha de tabaco. A nicotina é absorvida pela mucosa da boca, o que torna o produto discreto e de fácil uso em ambientes onde fumar ou vaporizar seria percebido.
Essa característica é justamente uma das razões de preocupação. A discrição pode favorecer o consumo em locais como escolas, festas, eventos esportivos, ambientes de trabalho e espaços onde outros produtos de nicotina seriam mais facilmente identificados. A Organização Mundial da Saúde alerta que embalagens discretas, sabores atrativos, promoção em redes sociais, uso de influenciadores e associação com música, esportes, festivais e estilo de vida estão entre as estratégias utilizadas para normalizar esses produtos entre adolescentes e jovens.
“Sem fumaça” não significa “sem risco”
É verdade que produtos sem combustão tendem a expor o usuário a menos substâncias tóxicas do que o cigarro convencional, cuja queima libera milhares de compostos nocivos. Esse argumento é frequentemente usado pela indústria para posicionar os sachês como uma alternativa de “menor risco” para adultos fumantes.
Mas esse debate precisa ser feito com cuidado. Do ponto de vista da saúde pública, há uma diferença importante entre discutir redução de danos para adultos fumantes que não conseguem parar de fumar e permitir que novos produtos de nicotina sejam apresentados como inofensivos, modernos ou socialmente aceitáveis para jovens e não fumantes.
A própria FDA, ao autorizar a comercialização de alguns produtos de nicotina oral nos Estados Unidos, destacou que isso não significa que sejam seguros, nem que sejam “aprovados” como produtos sem risco. A agência reforçou que jovens não devem usar produtos de tabaco ou nicotina e que adultos que não usam esses produtos não devem começar.
Além disso, o CDC informa que os sachês de nicotina não são aprovados como método para parar de fumar. Para cessação do tabagismo, existem terapias e medicamentos avaliados para esse fim, associados a aconselhamento comportamental.
Quais são os principais riscos à saúde dos sachês de nicotina?
O primeiro risco é a dependência. A nicotina atua sobre circuitos cerebrais ligados à recompensa, podendo gerar reforço do uso e dificuldade de interrupção. Em adolescentes, o problema é ainda maior, porque o cérebro segue em desenvolvimento até aproximadamente os 25 anos, especialmente em áreas relacionadas à atenção, aprendizagem, controle de impulsos e regulação do humor. O CDC destaca que o uso de nicotina na adolescência pode prejudicar o desenvolvimento cerebral e favorecer sinais de dependência mesmo antes de um consumo diário estabelecido.
A Organização Mundial da Saúde também alerta que a exposição precoce à nicotina pode afetar atenção e aprendizagem, aumentar a probabilidade de dependência de longo prazo e elevar o risco cardiovascular.
Outro ponto importante é a dose de nicotina. Um estudo publicado em Toxicology Reports analisou 31 amostras de sachês de nicotina e concluiu que a exposição aguda poderia exceder de forma importante uma dose de referência proposta para avaliação de risco, mesmo considerando o consumo de uma única unidade com menor teor detectado. Os autores destacam que a nicotina pode produzir efeitos cardiovasculares, como elevação clinicamente relevante da frequência cardíaca.
Há também preocupações sobre a saúde bucal. Uma revisão sistemática publicada na BMC Oral Health apontou que a literatura ainda é limitada, mas relatou possíveis efeitos como boca seca, dor, bolhas gengivais, alterações na mucosa oral e desconfortos na mandíbula. Os autores reforçam a necessidade de mais estudos para compreender os efeitos de curto e longo prazo desses produtos sobre a saúde oral.
Além dos riscos ao usuário, há o risco de exposição acidental de crianças pequenas. A Truth Initiative aponta que, entre 2020 e 2023, os relatos de ingestão acidental de sachês de nicotina por crianças menores de 6 anos aumentaram de forma expressiva nos Estados Unidos.
O público mirado: jovens, conectados e atraídos por sabores
Embora a indústria frequentemente apresente os sachês como uma alternativa para adultos fumantes, as estratégias de comunicação desses produtos levantam preocupação. A OMS descreve táticas como embalagens modernas, sabores doces ou refrescantes, marketing com influenciadores, presença em redes sociais, associação com esportes, música e festivais, além de mensagens que sugerem discrição e uso em qualquer lugar.
A Truth Initiative observa que os anúncios de sachês orais de nicotina costumam destacar sabores e enfatizar a “liberdade” de usar o produto em diferentes ambientes. Segundo a organização, marcas líderes gastaram quase US$ 25 milhões em publicidade entre janeiro de 2019 e setembro de 2021.
Esse tipo de comunicação é especialmente preocupante porque repete um padrão já observado com outros produtos de nicotina: primeiro, o produto é apresentado como inovação; depois, surgem sabores e embalagens atraentes; em seguida, o consumo se espalha entre jovens, muitas vezes antes que a regulação consiga acompanhar a velocidade do mercado.
O que mostram os dados no mundo sobre os sachês de nicotina?
Os dados internacionais indicam uma expansão acelerada. Segundo a Organização Mundial da Saúde, as vendas globais de sachês de nicotina ultrapassaram 23 bilhões de unidades em 2024, crescimento superior a 50% em relação ao ano anterior. A OMS também estimou que o mercado global desses produtos alcançou quase US$ 7 bilhões em 2025.
Nos Estados Unidos, os números também mostram crescimento expressivo. Um relatório de monitoramento de vendas aponta que as vendas mensais de sachês de nicotina aumentaram 207% entre janeiro de 2023 e abril de 2025, passando de US$ 145,5 milhões para US$ 446,8 milhões. O mesmo relatório mostra que, em abril de 2025, os sabores de menta respondiam por 62,1% das vendas, enquanto outros sabores, como frutas, doces e bebidas, representavam 23,2%.
Entre adolescentes norte-americanos, a preocupação é crescente. Dados da FDA e do CDC indicam que, em 2024, 1,8% dos estudantes do ensino fundamental II e médio dos Estados Unidos, cerca de 480 mil jovens, relataram uso atual de sachês de nicotina. Entre esses usuários jovens, 22,4% relataram uso diário e 85,6% usavam produtos com sabor.
Outros dados mostram que o uso entre estudantes do 10º e 12º ano nos Estados Unidos dobrou de 1,3% em 2023 para 2,6% em 2024, enquanto o uso ao longo da vida passou de 3% para 5,4% no mesmo período. O uso foi particularmente maior em áreas rurais e entre jovens brancos não hispânicos.
E no Brasil?
No Brasil, ainda não há um levantamento nacional consolidado e específico sobre o uso de sachês de nicotina entre adolescentes e adultos. Isso, por si só, já representa um desafio de vigilância em saúde pública: produtos novos podem circular, ganhar visibilidade e alcançar jovens antes que os sistemas de monitoramento consigam medir adequadamente sua presença.
O tema, porém, já entrou no radar regulatório. A Anvisa incluiu na Agenda Regulatória 2026-2027 o tema “Regulamentação de produtos fumígenos emergentes, como bolsas de nicotina”, dentro do eixo de tabaco. A Agenda Regulatória 2026-2027 foi aprovada pela Diretoria Colegiada em dezembro de 2025 e formalizada pela Portaria nº 1.484/2025.
Embora os dados brasileiros específicos sobre sachês ainda sejam escassos, a experiência recente com cigarros eletrônicos mostra como novos produtos de nicotina podem avançar rapidamente entre adolescentes. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2024, divulgada pelo IBGE, 29,6% dos estudantes de 13 a 17 anos já experimentaram cigarro eletrônico, contra 16,8% em 2019. O crescimento ocorreu em todas as grandes regiões do país.
Esse dado não deve ser confundido com uso de sachês de nicotina, mas serve como alerta: produtos com design moderno, sabores atrativos e forte presença digital podem se disseminar entre adolescentes mesmo quando há restrições legais e sanitárias.
O risco da “renormalização” da nicotina
Nas últimas décadas, o Brasil avançou muito no controle do tabagismo, com políticas públicas, restrições à propaganda, ambientes livres de fumaça, advertências sanitárias e campanhas educativas. Esses avanços ajudaram a reduzir a aceitação social do cigarro e a proteger milhões de pessoas.
Os sachês de nicotina desafiam essa trajetória porque deslocam o debate: em vez do cigarro com cheiro, fumaça e estigma, surge um produto discreto, aromatizado, portátil e aparentemente limpo. A dependência, porém, continua no centro da equação.
O perigo não está apenas no indivíduo que usa o produto. Está também na possibilidade de uma nova geração passar a enxergar a nicotina como algo normal, leve, socialmente aceitável e até associado à performance, ao pertencimento ou à vida adulta. É a chamada renormalização da nicotina: quando a substância volta a circular culturalmente com uma nova embalagem.
O que famílias, escolas e políticas públicas precisam observar?
A resposta aos sachês de nicotina não pode se limitar ao medo ou à punição. É preciso combinar informação, prevenção, regulação e cuidado.
Para famílias e educadores, o primeiro passo é reconhecer que esses produtos podem não se parecer com cigarros. Eles podem vir em embalagens pequenas, com identidade visual moderna, nomes em inglês e aparência semelhante a produtos de conveniência. Conversas abertas sobre nicotina, dependência, marketing digital e pressão de grupo são mais eficazes do que discursos moralistas.
Para profissionais de saúde, é importante perguntar sobre diferentes formas de uso de nicotina, não apenas cigarro convencional. Muitos adolescentes e jovens podem não se considerar “fumantes”, mesmo usando vape, sachês ou outros produtos.
Para o poder público, a OMS recomenda medidas abrangentes: restrição ou proibição de sabores atrativos, controle de publicidade e promoção, inclusive em redes sociais e por influenciadores, verificação rigorosa de idade, advertências sanitárias claras, embalagem padronizada, limites de nicotina, tributação para reduzir acessibilidade, vigilância epidemiológica e fiscalização efetiva.
Conclusão: o problema não é só o produto, é a estratégia
Os sachês de nicotina são mais do que uma nova forma de consumo. Eles representam uma estratégia de reposicionamento da nicotina para uma geração que cresceu ouvindo que cigarro faz mal, mas que agora é exposta a produtos com outra linguagem: discreta, aromatizada, digital e aparentemente inofensiva.
A pergunta central não deve ser apenas se esses produtos são “menos nocivos que o cigarro”. A pergunta mais urgente é: menos nocivos para quem? Em qual contexto? Com qual regulação? E a que custo para adolescentes, jovens e não usuários de nicotina?
Quando um produto altamente viciante é embalado como liberdade, sabor e estilo de vida, a saúde pública precisa olhar além da embalagem. Precisa enxergar a dependência que ela carrega.
* Snus tradicional é um produto de tabaco sem fumaça, muito associado à Suécia e a outros países nórdicos.
Ele é feito com tabaco moído e úmido, geralmente colocado em pequenos sachês, que a pessoa posiciona entre o lábio superior e a gengiva. A nicotina é absorvida pela mucosa da boca, sem necessidade de acender, fumar ou vaporizar.
A diferença principal para os sachês de nicotina modernos é esta:
Snus tradicional: contém folha de tabaco.
Sachês de nicotina: geralmente não contêm folha de tabaco, mas contêm nicotina extraída ou sintética, além de aromatizantes, adoçantes e outros componentes.
Ou seja, quando o texto diz que os sachês de nicotina são usados de forma semelhante ao snus, quer dizer que ambos são colocados na boca, entre o lábio e a gengiva. Mas eles não são exatamente a mesma coisa.
Mesmo sem fumaça, o snus tradicional não é inofensivo, porque contém nicotina, pode causar dependência e está associado a riscos à saúde, especialmente quando usado por jovens, gestantes ou pessoas que nunca consumiram tabaco/nicotina.
Box complementar: dados rápidos sobre sachês de nicotina
Mundo: vendas globais de sachês de nicotina ultrapassaram 23 bilhões de unidades em 2024, com crescimento superior a 50% em relação ao ano anterior.
Estados Unidos: vendas mensais cresceram 207% entre janeiro de 2023 e abril de 2025.
Jovens nos EUA: 1,8% dos estudantes do ensino fundamental II e médio, cerca de 480 mil jovens, relataram uso atual em 2024.
Sabores: 85,6% dos jovens usuários nos EUA relataram uso de sachês com sabor.
Brasil: ainda faltam dados nacionais específicos sobre sachês de nicotina, mas a Anvisa incluiu as bolsas de nicotina em sua Agenda Regulatória 2026-2027.
Alerta brasileiro: 29,6% dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos já experimentaram cigarro eletrônico, segundo a PeNSE 2024.
Referências:
ANVISA. Agenda Regulatória 2026-2027. Brasília, DF: Agência Nacional de Vigilância Sanitária, 2026. Acesso em: 1 jun. 2026. – https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/regulamentacao/agenda-regulatoria/2026-2027
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