A Dor Emocional Antes da Dependência

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“Antes do copo, houve uma mão” é uma crônica da Dra. Helen Gama que nos fala que o vício não começa na substância. Começa no silêncio! Antes do copo, da aposta ou da tela, existe uma dor emocional que não encontrou palavras.

Antes de falar em substâncias, comportamentos ou diagnósticos, é preciso falar de vazio, silêncio e dor emocional não escutada. Por trás de todo vício existe quase sempre uma tentativa de alívio — uma forma encontrada pelo corpo e pela mente de anestesiar angústias que nunca aprenderam a ser nomeadas.

O que muitos enxergam como fraqueza, escolha errada ou falta de controle, a ciência e a clínica vêm mostrando como um grito emocional: uma busca por regulação, acolhimento e pausa diante de um sofrimento que se acumulou ao longo da vida. O vício raramente começa no copo, na tela, no jogo ou na substância. Ele costuma começar muito antes — em ausências, desencontros afetivos, silêncios prolongados e dores que não encontraram presença.

Na crônica a seguir, a Dra. Helen Gama nos convida a olhar para além do comportamento visível e enxergar a história e a dor emocional que o antecede. Com sensibilidade, profundidade e base científica, ela nos conduz por um caminho que revela que, muitas vezes, o que se busca no excesso não é prazer — é alívio. Não é fuga — é sobrevivência psíquica.

Que esta leitura nos ajude a substituir julgamentos por compreensão, controle por cuidado e distância por presença.

 

Antes do copo, houve uma mão.

Brasília-DF, 03 de fevereiro de 2026.

Na maioria das histórias que terminam em excesso, o começo não faz barulho. Não há sirenes nem quedas espetaculares. Há apenas um silêncio antigo, desses que aprendem a morar dentro da gente.

Ele aprendeu cedo a engolir o que sentia. Não porque lhe faltasse comida ou teto, mas porque lhe faltava tempo compartilhado. Quando chorava, alguém resolvia o problema, mas raramente permanecia. Cresceu eficiente, correto, funcional. E profundamente só. Ninguém chamou isso de ausência; chamaram de maturidade precoce.

Anos depois, o copo apareceu como aparecem as coisas que prometem descanso, sem pedir licença. Não era sobre gosto nem sobre prazer. Era sobre pausa. Pela primeira vez, algo parecia organizar o caos difuso que ele não sabia nomear. O álcool fazia o que ninguém tinha feito: segurava, por instantes, a queda interna. O corpo aquietava, o pensamento desacelerava, a angústia perdia contorno. O que parecia escolha era, na verdade, alívio.

Há indícios de que o cérebro humano aprende a se regular antes de aprender a decidir. Atenção, memória emocional e controle do impulso são engrenagens que não amadurecem sozinhas. Elas se moldam no contato repetido com alguém que sustenta presença quando o desconforto aparece. Quando isso falha, não por maldade, mas por desencontro, o sistema tende a aprender outro caminho: fugir, evitar, anestesiar.

Muitos chamam isso de fraqueza. Outros, de pecado. Mas há trajetórias em que a compulsão não surge como rebeldia, mas como tentativa de sobrevivência psíquica. Um gesto automático para calar uma culpa sem nome, uma vergonha que nunca encontrou linguagem. O cérebro tende a repetir o que funciona, mesmo quando isso cobra um preço alto depois.

A pergunta que permanece suspensa não é “por que o vício?”, mas “o que precisou ser silenciado para que ele se tornasse necessário?”. Em famílias onde o afeto existe, mas não se traduz em escuta; onde o limite existe, mas não vem acompanhado de vínculo seguro; onde a fé é ensinada, mas o sofrimento não encontra colo, algo essencial pode ficar sem tradução interna.

A virada ocorre quando se compreende que o problema nunca foi o copo. Ele apenas ocupou um lugar vago, o lugar de alguém que poderia ter ficado, de alguém que tivesse segurado a mão quando o mundo ainda não oferecia substitutos tão rápidos para a dor.

Prevenir excessos talvez seja menos sobre controlar objetos e práticas e mais sobre cultivar presenças. Quando alguém segura a mão a tempo, o cérebro aprende algo decisivo: que o vazio pode ser atravessado e não precisa ser preenchido à força.

 

Se este texto fez sentido para você, compartilhe com alguém que precisa entender que o vício é mais complexo do que parece, que a dor emocional não deve ser silenciada e que buscar ajuda é importante logo aos primeiros sinais.

 

Sobre a autora:
Dra. Helen Gama
é Psicanalista e Psicóloga, com especializações em Neuropsicologia, Neuropsicanálise, Psicopatologia e Terapia Cognitivo-Comportamental. Sua formação acadêmica é enriquecida pela graduação em Gestão de Recursos Humanos, pós-graduação em Gestão de Pessoas e Coaching Ontológico, e mestrado em Direção de Recursos Humanos e Coaching Ontológico, atualmente em andamento.