Painel do 10º Congresso Internacional Freemind 2025 – “Meu filho não consegue mais viver sem o smartphone… E agora?”
Por Edmara Monteiro*
O 5º painel do 10º Congresso Internacional Freemind 2025 enfrentou um dos temas mais urgentes no campo da saúde mental, da educação e da convivência familiar: a crescente dependência digital entre crianças e adolescentes. Intitulado “Meu filho não consegue mais viver sem o smartphone… E agora?”, o painel reuniu especialistas de diferentes áreas para discutir evidências científicas, impactos neurobiológicos, consequências educacionais e experiências nacionais e internacionais de enfrentamento desse fenômeno.
A mesa foi moderada pelo psicólogo Ivanildo de Andrade e contou com a participação de Ms. Edmara Monteiro, especialista em evidências e dados científicos; Dra. Júlia Khoury, profissional com vivência clínica; Dr. Leonardo Carriço, representante da esfera pública e da formulação de políticas; e Ms. Eiji Fukushima, convidado internacional com experiência no México. A pluralidade dos perfis enriqueceu o debate ao integrar ciência, prática, política e visão global.
- O cenário atual: uma geração conectada e vulnerável
A exposição das crianças e adolescentes brasileiros ao ambiente digital está entre as mais altas do mundo. Segundo dados apresentados no painel, o Brasil figura entre os países com maior uso de internet por crianças e adolescentes, conforme estudos da ONU e levantamentos nacionais. Em lares com crianças de até 5 anos, 33,2% delas utilizam TV, smartphones ou tablets por mais de duas horas diárias; em 24% desses lares, não há livros disponíveis, o que reforça uma substituição cultural e cognitiva preocupante pelo consumo digital precoce.
A Pesquisa TIC Kids Online Brasil revela que 83% dos jovens de 9 a 17 anos possuem perfil em redes sociais, chegando a 99% na faixa de 15 a 17 anos. O uso frequente de plataformas como YouTube, WhatsApp, Instagram e TikTok se torna cada vez mais precoce e intenso, moldando hábitos, relações e modos de aprender.
Esses dados evidenciam que o smartphone ultrapassou o status de ferramenta e passou a ocupar um lugar central no cotidiano infantojuvenil, operando como fonte de entretenimento, interação, validação social e regulação emocional.
- A fronteira entre uso, excesso e dependência digital
O painel aprofundou as distinções entre uso recreativo, uso excessivo e dependência digital. Embora o diagnóstico clínico seja complexo e não mensurável apenas por tempo de tela, foram discutidos indicadores comportamentais e emocionais que sinalizam risco:
- impulsividade e irritabilidade quando privados do dispositivo;
- prejuízos no sono;
- queda no desempenho escolar;
- isolamento social presencial;
- dificuldade crescente de regulação emocional.
O DSM-5-TR (2022) e o ICD-11 (2022) foram apresentados como marcos importantes no reconhecimento de transtornos relacionados ao uso de tecnologias, especialmente o Gaming Disorder, já oficializado pela OMS. Esses referenciais ampliam a visibilidade científica e política sobre o problema, reforçando a necessidade de protocolos clínicos e políticas públicas específicas.
- Impactos neurobiológicos, cognitivos e socioemocionais
A exposição prolongada e desregulada às telas não afeta apenas o comportamento: altera a estrutura e o funcionamento do cérebro em desenvolvimento. Entre os principais achados científicos apresentados pela Ms. Edmara Monteiro, destacam-se:
✅ Neurobiologia e saúde mental
- Dano à ínsula, região ligada à empatia e à compaixão, identificado em pesquisas recentes sobre dependência digital.
- Aumento da liberação de dopamina, reforçando ciclos de compulsão e prazer imediato.
- Elevação de sintomas de ansiedade, depressão, estresse e até quadros miméticos de TDAH.
- Crescimento da nomofobia, medo intenso de ficar sem o smartphone.
✅ Processos cognitivos
- Prejuízo na atenção sustentada e no foco.
- Dificuldades de processamento profundo das informações.
- Redução de interações verbais em crianças pequenas, vinculada a atrasos na linguagem.
✅ Saúde física
- Sedentarismo crescente, associado ao uso recreativo em longos períodos.
- Problemas posturais, fadiga ocular, dores musculares e aumento de peso.
- Distúrbios musculoesqueléticos e maior risco cardiovascular.
Como destacou a apresentação, não se trata de demonizar a tecnologia, mas de reconhecer que cérebros em formação estão sendo expostos a estímulos excessivos em intensidade e frequência que não existiam em gerações anteriores.
Repercussões familiares e escolares
O título do painel — “Meu filho não consegue mais viver sem o smartphone… E agora?” — reflete a angústia real de milhares de pais que buscam respostas diante do comportamento dependente.
Para as famílias, o debate enfatizou três riscos centrais:
- Terceirização da regulação emocional: a tela como calmante, distração ou ferramenta de “controle”.
- Substituição do brincar livre, das conversas e das relações presenciais.
- Ruptura na convivência, com conflitos, irritabilidade e perda de vínculo afetivo.
No ambiente escolar, o excesso de tecnologia tem impacto direto na aprendizagem. Professores relatam queda de atenção, dificuldade de memorização, impulsividade, fadiga mental e aumento de conflitos entre alunos. As escolas, enfatizou o painel, precisam recuperar sua função como “porto seguro offline”, reduzindo estímulos desnecessários e reorganizando práticas pedagógicas para fortalecer a concentração, o diálogo e o pensamento profundo.
- Políticas públicas e responsabilidade coletiva
O painel, com participação do Dr. Leonardo Carriço, apresentou avanços recentes na esfera pública, como:
- elaboração do Guia Federal sobre Uso de Telas (2025);
- PLs voltados à proteção digital no âmbito do ECA;
- debates sobre regulação de publicidade dirigida às crianças;
- necessidade de articulação entre saúde, educação e assistência social.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (art. 17 e 18) foi central na discussão: garantir proteção contra influências nocivas inclui, no século XXI, a proteção contra excessos tecnológicos.
- Experiências internacionais
A contribuição de Ms. Eiji Fukushima trouxe um panorama do México, destacando iniciativas de prevenção nas escolas, campanhas de conscientização e programas de regulação do uso de dispositivos e smartphone, demonstrando que o problema é global e exige respostas multissetoriais.
- Estratégias de intervenção e caminhos possíveis
Os debatedores convergiram para três eixos estruturantes de enfrentamento:
- Para famílias
- supervisão ativa e limites claros;
- construção de rotinas afetivas sem telas;
- uso de contratos familiares digitais;
- reposição do uso recreativo por atividades de movimento, esporte e convivência.
- Para escolas
- revisão de práticas pedagógicas com foco em atenção e presença;
- ambientes escolares livres de celulares;
- formação de professores sobre saúde digital;
- protocolos de identificação precoce de risco.
- Para políticas públicas
- normatização do uso de telas na infância;
- campanhas massivas de educação digital;
- regulamentação de plataformas e publicidade infantil;
- financiamento de pesquisas e desenvolvimento de protocolos clínicos.
- Considerações finais: cuidar do futuro exige presença
O painel concluiu que a dependência digital é hoje uma das maiores ameaças ao desenvolvimento saudável das crianças e adolescentes. Como sintetizou a apresentação final:
“Estamos, potencialmente, moldando uma geração com menor tolerância à frustração e dificuldade de conexão humana profunda”
A tecnologia é parte do mundo contemporâneo, mas não pode substituir o brincar, a convivência, o silêncio e a experiência humana plena. A responsabilidade pela proteção da infância é coletiva e requer ações consistentes da família, da escola, dos profissionais de saúde e do Estado.
O norte é claro e respaldado por instituições como a Sociedade Brasileira de Pediatria e a OMS: limite, supervisão e mediação ativa.
O futuro das novas gerações depende da qualidade da presença — online e, sobretudo, offline — que somos capazes de oferecer.
Afinal, o futuro não está apenas nas telas, mas sim na qualidade do tempo que dedicamos à construção de cérebros saudáveis, empáticos e livres.
Você pode assistir ao painel na íntegra pelo YouTube do Freemind.
Acesse aqui para assistir em português.
Assista aqui em inglês.
Ou assista aqui em espanhol.
[*] Edmara Monteiro: Pedagoga, Psicopedagoga Institucional, Pós-graduada em Neuropsicopedagogia Institucional e Clínica, Pós-graduada em Coaching Educacional, Especialista em Educação Infantil Especial e Transtornos Globais, Especialista em Educação Especial com Ênfase em Deficiência Mental, Especialista em Pedagogia de Projetos, Especialista em Ensino Religioso, Mestre em Ciências das Religiões. Autora do livro: Reflexões de uma viajante; Coautora do livro: Mulheres que se leem.
